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Não existe autodidata no amor

escrito por Rosa


Sonhei com o amor. No sonho eu dizia para alguém mais novo do que eu - e que, agora, desperta, não sei quem é - "não te ensinaram como amar". O amor, ele próprio, é nosso, humano, pulsante, ali, presente. Amar, no entanto, é um processo de ensino e de aprendizagem.  É longo, leva uma vida toda; múltiplo, porque se desenvolve como resposta a estímulos diverso que recebemos de diferentes lugares; difícil, porque a gente erra muito até acertar.

Disposição para amar todo mundo tem.  Competência são poucos.

Quem vem acompanhando o diálogo que tenho feito com "O feminismo é para todo mundo", da bell hooks, sabe que eu tenho pensado muito em repensar o amor. Para ela e para mim, também, o amor é revolucionário. A potência transformadora do amor é assustadora. Tão grande quanto a do ódio. Amor e ódio são igualmente importantes para que a vida não seja um ser eternamente levado por ela.

Mas como é possível que alguém não saiba amar?

A infância é crucial. Tratar crianças como seres que não sabem muito bem o que fazem e que, portanto, nos apresentam um suposto cartão de livre passagem ao descaso e a violência talvez seja - certamente é, na verdade - a maior catástrofe. Crianças precisam ser amadas, celebradas e queridas. Não existe nada mais potente como possibilidade de mudança social do que uma criança que foi amada e SOUBE que foi amada.

Não basta amar, é preciso escancarar o amor.

Uma criança amada é um adulto que sabe do seu valor. Que não se rebaixa, nem se subestima. Será uma pessoa que sabe que não merece, de maneira alguma, o sofrimento.

Eu conheço tanta gente que não foi amada. Ou foi, e nunca soube. Ou foi, por pessoas tão machucadas pela própria história que perpetuou um ciclo de associação entre amor e sofrimento. Educar é dolorido, amar não é.  Educar só não será traumático se vier acompanhado pelo amor.

E essas pessoas não aprenderão jamais a amar?

Aprendem, e muito. Mas precisam querer. E mais que querer: precisam trombar na vida com pessoas dispostas a ensinar.
Antes disso, porém, vão espalhar muita dor por aí. Muito sofrimento.
Quem nunca foi amado e protegido como deveria demorará muito a aprender - ou sequer aprenda - como é sério o cuidado que devemos ter com aquele que nos oferece amor.

Não há quem seja autodidata no amor. A vida é mais rápida em ensinar, por conta própria, a solidão e o medo. Daí a importância de sermos todos professores.

O subtítulo do livro da bell hooks é: políticas arrebatadoras. Nada mais arrebatador que amar. Tampouco mais político.



Esse e outros textos da Marcella você encontra AQUI



Você é o que você posta?

escrito por Rosa



Faz tempo que eu não sento para escrever um texto que não seja para meu livro ou que não seja um texto rápido, para redes sociais. O que me põe sentada em frente a esse computador é uma conversa séria que eu comecei a ter com várias amigas e que eu quero expandir com vocês.

É um processo muito novo pra mim e eu não tô aqui, em hipótese alguma, querendo cagar regra na sua vida.  No fim do dia, sentado no seu sofá, faça aquilo que lhe convier. Vou dividir com vocês toda a trajetória do meu pensamento até o momento em que eu decidi falar publicamente disso.
Eu não sou uma digital influencer no sentido estrito da palavra. Não me sustento dessa forma, não passo o dia fazendo isso. Eu sou professora e escritora. Não tenho um número surreal de seguidores, mas é algo considerável (hoje o @maggnificas está com pouco mais de 31 mil, o meu pessoal 3 e alguma coisa). Ou seja, eu atinjo uma certa quantidade de pessoas. Mas esse texto vale se você tem 5 seguidores também.

A razão pela qual eu comecei, lá atrás, a me envolver com internet é a mesma que me põe aqui hoje. Eu gosto de escrever, gosto de ser lida e quero debater ideias. Eu sempre achei (e com razão, suponho) que poucas pessoas me liam.  De fato, pouquíssimas leem o conteúdo de forma integral e menos ainda são as que reagem, debatem, fomentam o discurso.
Concomitante a isso, existe a exposição da imagem. Eu sei, você sabe, qualquer pessoa que tenha rede social sabe, que a quantidade de pessoas que se engajam num post de imagem – corpo ou rosto – é infinitamente maior do que o engajamento gerado por um texto. E eu cedi diversas vezes – e acho que cederei outras mais – ao ego, à vontade de ser enxergada.

Se você acha que é um ser iluminado e divino porque não tem esse desejo, talvez falte autoconhecimento da sua parte. O processo de ser enxergado é absolutamente natural entre nós, é um dos mecanismos mais intrinsecamente humanos, que nos constitui como ser social. O processo de reconhecimento pelo olhar do outro é base fundante da psiquê de todo e qualquer humano. “Mas eu não me exponho em rede social”, você vai dizer, e eu acredito. O que você talvez não enxergue é que existem outros meios de compor esse olhar social, as redes sociais só tem sido um catalisador – eficaz e preocupante.
Além disso, algumas coisas curiosas começaram a acontecer. Positivas: li o livro porque vi que você indicou; vi tal série porque você indicou; amei o seu texto, ajudou a me amar mais; obrigada por me ensinar esse conceito. Negativas: queria ser feliz na carreira como você; queria um namorado igual ao seu; queria me aceitar e ser feliz como você se aceita.
Não adianta, em resposta a esses comentários, dizer que eu não sou feliz plenamente na minha carreira, e que eu seleciono expor a melhor parte que são meus alunos; não adianta eu dizer que meu namorado já deu e dará muita mancada na vida, mas eu não preciso reclamar disso publicamente; não adianta, enfim, eu dizer que eu me odeio na frente do espelho dias a fio e que eu não amo tanto assim meus olhos que vivem inchados.
Porque outra coisa já disse por mim: a imagem.
Porque dizer é pouco perto do universo encantador da imagem.

E bem, eu já venho conversado sobre a importância da #curadoriadetimeline. Não só eu. 

A Xanda do @alexandrismos subiu esse vídeo no canal dela que fala super bem de como usar o insta e pensar na saúde mental. A Carol Bataier escreveu aqui um texto incrível sobre perfis que seriam saudáveis de seguir para ela e como ela precisou entender o elemento nocivo que há em se expor a imagens que pressionam e deturpam o autoconhecimento. Ela e a Marina, minha parceira no @maggnificas é que fazem essa discussão encontrar eco. Uma das poucas pessoas "famosas", magras e da moda que eu ainda sigo é a Thais Farage, porque ela sempre questiona o conteúdo postado. SEMPRE. Ser feminista ativista depende disso, no meu ponto de vista. Os dados são assustadores, especialmente para mulheres: a saúde mental está em jogo na internet e não é pouco.

Mas hoje, eu quero sair desse ponto de cuidar da timeline e jogar um dilema ético:
Por que postar o que você posta?

Coloquei essa pergunta no meu stories e achei as respostas incríveis. Tem gente preocupada, tem gente que não sabe, tem gente que assume que é tédio, tem gente que diz que quer causar, tem de tudo.
Que bom que tem de tudo no mundo.

Quero fazer uma brincadeira – despretensiosa em seu rigor científico – com o imperativo categórico de Kant. Para quem foge de filosofia moral ou não teve a sorte de ter um bom professor de filosofia, vou resumir de maneira mais simplificada e até leviana: Kant criou um crivo ético para ações morais. Ele se inicia com dois pressupostos: a possibilidade de universalização a ação e a impossibilidade de usar o ser humano como MEIO. A ação, para ser moral, deve ter finalidade em si mesma. Ser moral porque é, sem alçar em ninguém isso.
Que Kant me perdoe, mas eu proponho uma versão popular para instagram nessa pretensa conversa filosófica de bar:
E se o que você posta, alguém de grande alcance postasse, universalizando a ação: você faria mais bem que mal?

A sua postagem usa de um ser humano para atingir um fim?
É claro que não dá para fazer uma abordagem mega ética para cada Stories do seu gato (aliás, gatos sempre são bem vindos na timeline). Mas dá para tomar a decisão para si, e pensar:
Que tipo de incentivo, energia, ideias eu jogo para o mundo?
Não abra mão disso. Não finja que você não é responsável pelo que causa nos outros. 

Ou abra. Porque cada um sabe o que faz da vida.



Conchinha.

escrito por Rosa


Na casa dos meus pais eu durmo melhor. Sempre é assim. Desde que eu saí da casa dos meus pais, eu durmo melhor lá. Mesmo que agora eu tenha uma casa com quarto melhor, cama  maior, lençol macio e cheiroso. Parece que, estando lá, eu capoto. Volto em alguma medida a ser criança e dormir profundamente, como se os meus pais, no quarto ao lado, fossem capaz de impedir que qualquer problema encoste em mim. É de uma capacidade de relaxamento que eu nem sei descrever.

Outra coisa que adoro é dormir no colo da minha mãe, no sofá, enquanto ela e meu irmão assistem futebol.  O som do narrador embala, o cafuné e a paz. A paz que só uma criança - que não tem problema nenhum - tem.  Uma paz que é difícil experimentar na vida adulta.
Quando comecei a me relacionar com meu namorado, já fui logo me incomodando com os horários dele: eu acordo e durmo cedo, ele acordava e dormia tarde. Como isso já tinha acontecido antes, eu sabia como seria: eu dormindo antes, acordando antes e passando um bocado de raiva.

Eu não sabia como seria, não com ele.  De fato, ele dorme depois de mim e acorda depois, mas ajeitou seu horário para, pelo menos - ainda que não durma - deitar comigo. E, ali, deitado, ele me embala o sono, lendo ou assistindo alguma coisa, mas comigo.
Eu tenho dormido tão profundamente. Eu tenho acordado com a sensação boa de quem dormiu no sofá e magicamente acordou na cama. Eu tenho sentido, adulta e na minha própria casa, a paz de espírito do meu sono infantil. É como se no abraço dele não tivesse como alguma coisa me atingir.  Nem meus pesadelos. Nem a ansiedade que carrega com ela a insônia. Nada. Eu durmo, capoto: é como se eu pudesse explodir de gratidão por um abraço representar a volta a uma sensação que eu achei impossível reconstruir.

Eu tenho alguns minutos de inveja, é verdade, porque eu saio da minha cama antes do próprio sol resolver que é hora do dia começar. É verdade também que eu queria desligar o despertador e passar mais uns quarenta minutos agarrada naquela bagunça de cabelo que fica jogada no travesseiro. Mas isso não impede que  eu levante disposta e sinta que vale à pena acordar, viver o dia, cansar tudo de novo e deixar esse cansaço do lado de fora do quarto,  porque de noite eu tenho hora marcada com a paz.

ele quem desenhou



O que é sentir paz de espírito?

escrito por Rosa


Sempre achei essa coisa de paz meio brega, meio inútil. Eu sempre dizia que era demais da treta para achar que paz era algo positivo. Nunca fui do morno, por isso achava que paz me encheria de um tédio irremediável.

Até que esses tempos comecei a sentir um negócio louco, que nunca tinha sentido em plenitude: de que eu estava, finalmente, certa. Não que a minha opinião sobre algo estivesse correta - mesmo porque, sempre acho que está - mas certa como se estivesse exatamente ocupando os espaços certos, convivendo com as pessoas certas, fazendo o que deveria fazer, ao lado de quem deveria estar.

A despeito de qualquer cansaço de levantar as 5h15 todo dia, eu sinto que tô acertando em vencer o sono.  Eu acho propósito na minha caminhada e eu tenho um lugar para chegar. Estou certa no meu apê e como parece que ele me abraça quando eu chego. Estou certa dentro do meu corpo, amando-o e vivenciando-o do jeito que ele é e com as possibilidades que ele tem para me oferecer.

Eu estou certa naquele ombro, quando recosto no banco de espera de uma espera qualquer. Eu estou certa naquele abraço que segura a tristeza que, não é raro, parece insustentável. Tô certa nos clichês que agora eu repito sempre e incansavelmente.

Foi comendo num restaurante específico hoje, sentada no mesmo lugar que havia me sentado meses antes, que eu entendi, por comparação, o que eu finalmente sentia. Há meses, eu sentia que tudo estava um pouco fora do lugar: eu, uma pesquisa despropositada, um corpo que não gostava, um cansaço que horas de sono não curavam. Pior: a mão que estava do lado da minha, comendo ali, não a entrelaçava. E eu desejava tanto e fortemente que eu pudesse segurar naquela mão de novo.

E cá estou eu: de mãos dadas, com quem eu queria e com a vida. Finalmente achando que estou exatamente deveria estar,com quem gostaria e fazendo o que me dá propósito. Acho que existe paz. E eu te desejo a sensação maravilhosa que ela pode trazer, sussurrando no seu ouvido que finalmente veio para ficar.

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14 de fevereiro de 2018

escrito por Rosa


Acordei apaixonada. Lembrei que a manhã ainda cinza dessa quarta-feira de cinzas é manhã de São Valentim. Ontem, conversando com minha mãe ao telefone, ela me lembrou que no Líbano (ela é de lá) comemora-se o dia dos namorados. Qualquer googlada e você lê versões mil do porquê comemorar o dia dos namorados e todas elas, se olhadas sob a ótica do filtro problematizador resultam em: datas criadas para gastar dinheiro. Inclusive, eu não sabia, mas fiquei sabendo que 12 de junho foi uma data instituída por um publicitário, que é o pai do Dória, atual prefeito de Sp.

Enfim, informações comerciais à parte, lembrei que há um ano eu escrevia aqui nesse blog sobre o amor e a questão da reciprocidade. Mais especificamente, como amor não carece de reciprocidade, o amor existe e ele nos pertence, e, porque ele é nosso, fazemos com ele o que quisermos: expomos ou não, vivemos ou reprimimos, experenciamos ou desistimos. Se o texto interessar, ele está AQUI.

Acontece que, um ano depois, mesmo continuando a acreditar firmemente nisso, eu queria acrescentar algo muito importante que tenho aprendido ultimamente sobre o amor: a pulsão imensa que ele nos dá para ser bom/boa.

Há tempos tenho sentido isso em sala de aula: quanto mais carinho eu tenho pelo meus alunos e pela profissão, tanto mais eu quero ser a melhor pessoa possível para que o mundo seja um pouco menos ruim pra eles.

Falando assim, parece que eu sou um poço de candura. Não sou. Dentro de mim, moram muitas Marcellas. Aquela que é egoísta, invejosa, mal educada, cruel, preconceituosa. E eu luto, na medida do possível, contra elas. Nessa guerra, o amor tem sido meu maior aliado. O amor tem me feito silenciá-las com um poder raro:  não é que eu tenho medo que ele conheça essas versões de mim (eu não tenho. Na verdade, ele já as conhece), mas é porque o amor habita esse mundo que eu quero deixá-lo o melhor mundo possível...

É porque o amor é bom, que eu não posso ser ruim. É porque o amor acorda sorrindo, que não faz sentido não estar bem humorada. É porque amor cuida de mim, que eu não posso descuidar de mim mesma. É porque o amor chega, que a espera não pode ser vazia. É porque o amor sempre esteve dentro de mim, que eu não precisei só recebê-lo: mas trocá-lo. Concedendo meu melhor lado e recebendo de volta: o amor não cria as condições para que eu seja feliz - isso sou eu quem faço -, mas as escancara para mim.

Comemoremos o amor.

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O que eu digo quando eu digo que amo?

escrito por Rosa


Eu sempre digo para os meus alunos que nem 7 mil anos de filosofia ocidental documentada resolveu essa treta que é o amor, que dirá nós, pobres mortais, filhos da nossa era, impressionáveis com seriados criados por algoritmos falhos?

A gente não sabe o que é o amor.

A despeito de não saber, alguma coisa borbulha dentro da gente entre milhões de outras coisas que borbulham. Eu não sei, sinceramente, uma definição clara do que é amar, mas eu sei o que não é. E isso já me adianta bem a vida.

Ter a clara compreensão de que o amor se dá em modalidades diversas é algo fundamental para desobstruir uma sensação errada que muitas pessoas têm de 'falta de amor' ou de 'não estar amando'. Eu não me lembro de alguma passagem da minha vida em que eu não estivesse amando. Eu sei que tendemos a chamar de amor o amor romântico, mas é incrivelmente parecido o amor que temos por outras relações, a gente só não percebe.

Amor de amigo também deixa a gente com coração partido. A gente também cria expectativas com amor de mãe e de pai. Toda forma de amor gera as mesmas consequências.  O que difere é o quanto o mundo nos prepara para elas. O que eu quero dizer é que é absolutamente aceitável que o amor erra quando esse amor não é o de um parceiro romântico.

Se, por um lado, somos mais generosos em perdoar os erros dos amores não românticos, por outro, somos menos capazes de expressá-los e vivê-los como tal. A gente, às vezes, mecaniza o amar que a gente deve amar  "porque sim".

Mas isso é uma ilusão. O amor acaba em todas as esferas, porque ele é um construto e não é inato. Não tem nada a ver com sangue, não. A vida adulta ensina isso. Quando eu falo com minha mãe e digo que a amo é porque eu e ela construímos esse amor todos os dias. Igualmente quando digo que amo a Marina aqui do Magg, quem eu vejo pessoalmente poucas vezes no ano, mas que nunca sai de perto de mim e se envolve na minha vida e sente comigo.Eu não a amo porque um dia amei e fim.  Eu a amo porque todos os dias é construído por nós o amar.

Apesar disso...

Acho que cada um diz uma coisa quando diz que ama.  Nunca será a mesma coisa. Porque nunca seremos os mesmos. Precisamos e sabemos amar com o instrumental que temos em nossas mãos. E a verdade que tem gente que não ama como a gente. E confundimos isso com desamor.

A gente não sabe o que é o amor. DO OUTRO.

A gente só pode amar como a gente sabe amar e fim.

Por isso, o eu amo você, vindo do outro lado, deve ser recebido  com todo carinho do mundo, mas consciente de que nunca será plenamente acessível seu real significado.  E que bom que não.

Porque se tem poesia nessa vida ela está em saber que alguém nos ama - sabe-se lá como e por que - a despeito de não saber de forma alguma que cara tem esse amor. Mas - é essa a magia - senti-lo, forte, presente,preenchendo todas as partes lacunares do seu corpo e da sua vida, formando um todo inteiro, capaz de começar a segunda-feira dizendo:

como é bom estar aqui.

Boa semana para a gente.


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como me sinto hoje em um gif



Não fica.

escrito por Rosa


O conselho que a gente dá para os outros é tão mais fácil do que aquele que a gente deveria dar pra nós mesmas. Mas é que tem coisa que não vale à pena. E a gente quer pegar a amiga pelos braços, sacudir e dizer: PELO AMOR DE DEUS, NÃO FAZ ISSO COM VOCÊ MESMA.

Não fica com quem não te admira, porque admiração é importante. Mas só admirar é muito pouco. Não fica com quem não te respeita. Respeito é o que garante que te vejam como sujeito, livre, plena de direitos. Mas só respeitar é muito pouco. Não fica com quem não gosta da tua companhia, porque em pleno terça-feira de novembro você vai precisar só ficar quietinha no sofá, curtindo contar pra aquela pessoa como seu dia foi uma merda. Mas só gostar da companhia é muito pouco, tem que gostar do silêncio também. Não é com todo mundo que você pode ficar no silêncio, sem precisar preencher o vazio entre vocês com uma fala babaca qualquer, como se precisasse distrair um do outro. O silêncio é a paz de quem a existência traz paz pra sua, não cansaço. O silêncio é muita coisa, mas não a única. Não fica com quem não acha teus defeitos perdoáveis, porque eles existem e eles seguirão existindo, eles só precisam ser suficientemente contornáveis para não fazerem com que, em algum momento, você odeie ser quem é. Mas não basta tolerar os defeitos, é absolutamente fundamental não competir. A gente compete forçadamente todos os dias em ambientes em que esse  é, muitas vezes, o único modo de sobreviver. Não dá para competir com quem deveria apoiar incondicionalmente. Não dá para competir com a pessoa que você levanta de manhã pra fazer café. Só não competir ainda é pouco. É preciso se sentir apoiada. Crescemos apoiando a todos, mas a gente se esquece que o que a gente faz também é absolutamente fundamental e, não importa o quanto a gente seja boa, a gente precisa de apoio. Mas não se contenta só com apoio, procura também por cuidado, tá? Você pode ser uma fortaleza, mas é sempre bom ter quem diga que "tá tudo bem" quanto o pesadelo, acordado ou dormindo, parecer que não tem fim. Cuidado, enfim, será o suficiente, porque só quem realmente gosta pode cuidar.

e é isso que eu queria pra você, minha amiga,
alguém que realmente goste de você.

do contrário, não fica.

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Andar com fé eu vou..

escrito por Rosa


Como vive quem não tem fé alguma? Ecoando na cabeça a música do Gil, fiquei me perguntando se realmente existe gente no mundo que não tem fé em absolutamente nada, nadinha: nem religião, nem santos, nem pulinhos, nem fitas ou pedras, nem incenso, nem tarô, nem nos astros ou sequer nas pessoas.

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Não acho que fé seja algo necessariamente vinculado com religião. E quando digo que não sei se as pessoas sem nenhuma fé existem é porque realmente tenho dúvidas se o ser humano dá conta de viver seus dias e lidar com a própria vida sem acreditar que existe algum propósito no rolê: nem que seja o único propósito de existir, e só. Ter fé não é necessariamente ter uma esperança positiva nas coisas, mas talvez dispor de uma energia em acreditar que vai, sim, fazer sentido - veja que fazer sentido, para mim, não significa necessariamente dar certo.

Puta esforço diário que é entender que as pessoas são mais do que elas nos proporcionam enquanto sentimento. A gente quer - muito, mas muito mesmo - sentir determinadas coisas e fica achando que uma pessoa é absolutamente responsável por nos propiciar isso. Mas as pessoas não são e se a gente se relacionar com elas esperando sentir o que a gente desejaria sentir, bem... você já deve ter percebido que dá errado.

A mágica acontece quando o que a pessoa deseja fazer e viver coincide com o aquilo que você pretendia/gosta de sentir. Sorte de alguns, mas uma sorte eventual e efêmera.  O amor não é isso mesmo, Carlos?

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É porque o amor é isso, hoje ama e amanhã não se sabe, que eu preciso de fé. Fé de que as pessoas surgem na nossa vida para ensinar alguma coisa. Fé de que acordar todos os dias de manhã pode nos fazer encontrar o inesperado e sentir o que a gente nem sabia que gostaria de sentir. Fé de que a gente faz diferença hoje na vida de alguém. Fé em deus, para quem é de deus. Fé em você mesmx. Fé de que o melhor propósito que a vida pode ter é não ter nenhuma ideia do que virá amanhã.

E amanhã pode ser absolutamente incrível. E você sequer acreditaria se eu tivesse contado isso ontem, então.

Eu escolho ficar com a fé, que a fé não costuma faia.





Entre o Pequeno Príncipe e o seu sadismo disfarçado de liberdade.

escrito por Rosa


Há alguns anos e em outro blog, eu escrevi criticando muito o Pequeno Príncipe sobre aquela frase que aparece em 11 de cada 10 textos bregas: tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.  Essa frase, que é ainda pior pra quem acredita em vida eterna, tem um peso bizarro sobre relacionamentos: a ideia da reciprocidade compulsória.

Mas é óbvio que ninguém é obrigado a estar com ninguém nessa vida e nem deveria ficar por qualquer motivo que não seja a livre e espontânea escolha. O que eu acrescentaria ao texto da Marcella de anos anteriores é um conhecimento que eu precisei sentir na minha pele - e na das minhas amigas queridas - para entender: não ter reciprocidade não precisa significar ser um escroto.

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Somos, enquanto mulheres, treinadas à entrega amorosa.Somos ensinadas à dedicação afetiva, sentimental, à disponibilidade. Somos estruturalmente criadas a nos por de lado pelo sentimento do outro e, enquanto feminista, é sempre uma luta todo dia contra mim mesma para lembrar que a primeira pessoa a quem eu tenho que me dedicar exclusivamente sou eu.

Mas achar que o Pequeno Príncipe exagerou não pode levar a outro extremo: o sadismo disfarçado de liberdade, isto é, porque sou livre vou embora sem mais nenhuma explicação. Esse é só mais um texto dos milhões sobre responsabilidade afetiva que você vai ler por aí, mas tudo bem: é importante dizer o óbvio às vezes, sim. Especialmente quando todos os dias um caso diferente de um homem que diz amar loucamente a mulher resolve, no dia seguinte, que não a ama tanto assim.

Já amei muito uma pessoa que disse que não estava pronta para me amar. E assim nos relacionamos, eu a amando muito, ela não podendo me amar. E eu senti muita tristeza com isso e até um pouco de raiva. Hoje, exatamente no dia de hoje, consigo ver o tamanho da honestidade dessa pessoa, da consciência afetiva de quem sabe ser honesto e dizer: não posso oferecer o meu amor. Hoje eu sei disso, mas nem sempre foi assim.

Todo ser humano quer ser amado: não ludibriar alguém com amor é nobre. Usar disso para convencer alguém a ficar sabendo que não tem nada ali para o oferecer é sádico.

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Tem gente que é doente e tão mal caráter que não enxerga o próprio movimento de prometer um mundo sem ter sequer um grão de areia para oferecer. Não, ninguém é eternamente responsável por quem cativa, mas deveria encerrar com dignidade e empatia a história, mesmo que ela tenha sido escrita por um autor só. Mesmo que você tenha dito que não queria nada - sua boca disse, mas e os seus atos? Mesmo que você tenha avisado desde sempre que não daria certo. Ter cuidado ao encerrar um relacionamento diz muito mais sobre empatia do que sobre amor. Muito mais sobre ética. É fácil pensar no outro quando a gente está apaixonado, mas quando a outra pessoa não é mais quem você ama, é preciso olhar para ela como um ser humano, um universo todo, e não como um empecilho para sua diversão. 



Essa segunda-feira...

escrito por Rosa


Esse não é um post de homenagem pelo aniversário da Marina, mas o fato é que o aniversário da Marina, esse final de semana, o vento que tá entrando pela minha janela no exato minuto que eu escrevo esse texto, o livro que eu estudo me encarando da prateleira e mais a minha vontade imensa de dividir o que tô sentindo agora me fazem dizer que: a vida é um negócio muito louco.

Escrevi esses dias mesmo sobre o quanto eu amo a rotina e a (inevitavelmente falsa) sensação de segurança que ela me proporciona.  Amo mesmo. Acho que controlo assim me ansiedade e tal. Se tiver com dúvida do que quis dizer, clica AQUI.

Agora veja que isso não significa, nem nunca vai significar, que o imprevisível não me comove.
Ontem, ao lado do meu namorado, eu assisti o documentário HUMANOS (tem no Netflix)

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E não é que eu não soubesse da maioria das coisas que foram ditas ali, mas eu me esqueço com facilidade.  E, de novo, não é que eu queira me esquecer, mas é que existe uma superestrutura muito firme me levando para longe do que tem de mais eu em mim.

Volta para Marina, que hoje comemora o dia do seu nascimento. Vejam que se não fosse uma rede maluca de círculos e relações, eu não a teria  conhecido. Mais ainda, não fosse um esforço mútuo de compreender uma a outra e tentar - honestamente - se colocar no lugar uma da outra, talvez a gente não fosse capaz da amizade que temos hoje. É a amizade no sentido pleno: absolutamente desinteressada e que nasceu de uma admiração à distância.

tô com saudade de tu, meu desejo..

Corta para o evento entrando na minha janela enquanto eu escrevo esse texto. De todas as coisas que eu acredito que tenho sorte de ter no meu campo de visão agora: meu computador, minhas canetas coloridas e minha coleção de post it, não tem nada mais importante nesse exato segundo que o vento batendo na minha cara e me fazendo sentir que o rosto tá inchado. Eu dormi mal. Eu tive pesadelos essa noite e que bom é ter pesadelos durante à noite e depois acordar com o beijo que você queria. 

era dia do biólogo, eu não sei pintar, teoricamente sabia onde ficava o acento. Errei tudo, mas ta tudo bem.

E, por fim, olho para o livro que eu estudo, que eu teoricamente sei tanto, que tem tirado de mim as energias que me sobram depois do trabalho.  Olho e me pergunto: por que é que eu te escolhi, ô embuste? 

Porque o imprevisível ta aí. Trazendo escolhas, quando a gente nem viu as opções. Parece good vibes, parece marxismo, parece loucura, mas é Drummond:

que triste são as coisas olhadas sem ênfase.

Que os deuses me livrem de não poder olhar as coisas com ênfase. E que todo mundo encontre uma Marina para lembrar da beleza do acaso e da poesia do amor desinteressado. E que a gente poeticamente reencontre o prazer do vento na cara e do beijo matinal, a despeito do medo e da insegurança. Havia 27748283 definições de amor no documentário.  Eu não consigo escolher nenhuma, porque - até pra mim, que vivo de palavras - tem alguma coisa que não se explica na sensação de plenitude dessa segunda-feira sonolenta.

Que de alguma maneira esse texto leve paz..
Boa semana <3




A quem você pertence?

escrito por Rosa


Esse texto não tem qualquer pretensão científica, eu quero - mas ainda não fui - um dia pesquisar sobre isso no campo da psicopedagogia. Como eu não tenho tempo e isso ainda é um blog livre de quaisquer avaliações capes, vim partilhar com vocês - e receber de volta as impressões - sobre o poder do sentimento de pertencimento.

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Tenho percebido cada vez mais, especialmente em sala de aula, o tamanho do problema que a falta de uma conexão mais profunda com alguém ou algo pode gerar, especialmente com adolescentes (mas não se enganem, conosco é igualzinho, já que somos, basicamente, adolescentes que disfarçam a crise existencial cotidiana). Quando falo nesse pertencimento, quero retratar esse desejo humano de porto-seguro, confiança plena, afago, cuidado. Imagino que o primeiro pertencimento deveria ser aquele vindo da nossa família. Tem coisa mais reconfortante que saber que tudo pode dar errado, mas aquela pessoa - mãe, pai, tio, padrinho, vó etc, etc - vai receber você de braços abertos e dizer que, a despeito de todo o resto, vai ficar tudo bem? Imagino que não. Eu que associo afeto à comida, acrescentaria ainda uma comida quentinha a esse abraço. Um bom chá ou café. Um vinho ou uma cerveja. Enfim...

Além desse abraço, tem aquela coisa boa do reconhecimento. Nós, os "Silva" somos assim: e naquele bando de gente cheia de defeito encontrar os seus próprios e sentir uma empatia imensa e curiosa por aqueles com quem você aprendeu a reproduzir o mundo.

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Depois a escola: é gostoso pertencer a sua escola. Odiar a própria escola deve ser a coisa mais perturbadora que pode existir para o aprendizado de um aluno: não se sentir parte, acolhido, cuidado. Que tristeza. Afinal, é lá que nasce a base do que entenderemos o resto da vida sobre coletivo e vida em sociedade...

Por fim, os amigos e os amores. A idade nos mostra que amigo para bater um papo há vários - e que bom que eles existem - mas aqueles que são redutos, são poucos. Únicos, talvez. Olho pra minha amiga e penso: "essa é a minha garota". Sabe, não é no possessivo do minha e de mais ninguém, mas eu sei que eu pertenço a ela - faço parte dela - e ela pertence a mim.

Almejo isso em relacionamentos amorosos, também. Por vezes tive, por outras não. Claro que esse tipo de relacionamento não vem do dia pra noite, é uma construção diária e cotidiana. Mas vejo pouco sentido - talvez nenhum - em estar em um relacionamento estável se eu não tiver a sensação de que aquela pessoa está para mim. Está, mesmo. Ali, do lado: dividindo de verdade a vida.

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Diante de tudo isso, diante de um mundo todo fragmentado nas suas relações, confuso, rápido, efêmero, que pensa no imediatismo: a quem a gente pertence? Famílias passando noções de sucesso, mas não de parceria. Escolas ensinando conteúdo específico, mas não ética; amigos para a cerveja de comemoração, mas não para aquela do dia merda; namoros que existem no hoje, mas não podem cogitar o depois.

Resultado: a gente totalmente desesperado tentando encontrar algo a que pertencer. Do time do crossfit, da academia, da galera da firma, dos fãs de The Walking Dead, da galera que vai toda sexta naquela bar. E não faz mal, sabe? O mal é que isso passa. E se a gente não cultiva o pertencimento verdadeiro, com amor, cuidado, responsabilidade afetiva e disponibilidade, a gente acaba parado no bloco do eu sozinho.



Você é você e o seu passado

escrito por Rosa


Voltamos à clássica: relacionamento é muito difícil, especialmente se você é pessoa com o mínimo de responsabilidade afetiva - e eu espero mesmo que você seja.
E é difícil porque é impossível não ser quando colocamos para dividir uma vida - o que inclui expectativas, sonhos, responsabilidade, cotidianos - duas pessoas que não tiveram a mesma história.

O outro é o outro e todo o seu passado.
Você é você e o seu passado.

E se a gente olhar com calma, isso significa também, em português bem claro: que a gente vai, INEVITAVELMENTE, sofrer com os traumas que as outras histórias deixaram. E a gente vai sofrer com as histórias mal resolvidas que nunca nos incluíram. E a gente vai perder oportunidades porque a pessoa fechou abas que a gente nunca pôde abrir. E a gente vai dialogar sozinho com o mal estar do outro.

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A gente, tem dia, que vai tentar tentar, e não vai dar nem isso.

É para isso que a gente tem que estar disposto quando está disposto a estar com alguém: tentar, aos trancos e barrancos, às vezes, amar o suficiente para sentir queimar na pele um fogo que a gente não plantou.

Se vale à pena?

Eu não sei. Eu só sei dizer que não existe alguém que venha desconstruído e de peito aberto para amar de novo, como se fosse tudo novo. E é claro que se não houvesse o passado - que resvala em negatividade, no medo, na insegurança, nos fantasmas - também não haveria o bom, o bonito, o que aquela pessoa aprendeu para fazer sentido na sua vida. 

A gente precisa encontrar um passado que tenha deixado para gente um olhar possível de encontrar o nosso. Amor não tem nada a ver com encontro de almas gêmeas, é só um encontro - pouco estável - de quem realmente acha que vale à pena aprender de novo. Amar é aceitar que a gente precisa rever o outro, todo dia. É  achar alguém que tenha, de verdade, o que ensinar.



Serás o meu amor, serás a minha paz.

escrito por Rosa


Leio e releio os manuais da internet e concluo, incansavelmente, que não é nada fácil se relacionar, mas eu quero, porque é você. Andei perdendo a conta dos números que apostei nessa nossa história mal contada e me confundo a inventar (re)começos que nunca existiram, ou que seriam incríveis ainda que você me jurasse juradinho que foi tal qual eu contei. Reconto histórias ficcionais todos os dias para os 813 seres que vivem dentro de mim e com quem você dialoga tão bem - melhor que eu, talvez? - e me lembro da voz calma do Deleuze (você viu esse vídeo? Eu te mandei, entre mensagens honestas e saudades doloridas, mas acho que você perdeu) dizendo que, enfim, amar é entender o quê de loucura que habita o outro. Ou trazer paz. Eu não sei se eu classificaria como paz, porque para poder assim dizer que é, eu precisaria conhecer a paz. Ninguém reconhece o que nunca viu e eu te digo, honestamente, eu não faço a mínima ideia do que seja se sentir em paz. Eu não nasci na paz, ou eu não sei o que é paz. Fico achando que é budismo com yoga e veganismo, talvez uns chacras e uma canga com Shiva. Mas isso não é paz.  Tô brincando, mas é sério. Tem, eu sei, eu desconfio, na velocidade das aquarelas e de pedir as contas assim correndo; há uma centelha de paz que se transforma bem rápido em fogo dentro de mim, mas é paz, talvez seja, eu não faço a mínima ideia das cores que constroem um espectro de paz. Paz me lembra marasmo e amor, pra mim, é essa loucura que você loucamente renega. Como é que eu posso falar em paz quando vivo na intensidade da guerra interna, entende? É lógico que quando eu me afogo em seu abraço eu sinto a proteção de uma fortaleza. Quando você me abraça, e vem o clichê, eu fico inatingível. Absolutamente inatingível. Mas... Acontece que. A verdade é que eu sinto uma inveja danada do seu desprezo maluco por momentos que viraram memórias, mas é porque eu acho que aprendi que a gente só pode se envolver com quem deixa marcas reais de loucura na gente. É você é tão íntegro, mesmo. Você é todo ali, respirando e vivendo a segurança em forma de abraço que eu dou pra você cegamente. O que você não vê - mas sabe, sente - é que nesse abraço vai escorrendo também um monte de outras coisas inomináveis, porque se eu pudesse dar o nome, se eu soubesse como dar nome, talvez fosse a palavra que mudaria o meu modo de viver. Na exaustão que mescla o meu abraço com o seu, transborda o incalculável perímetro do medo que eu sei, vai, talvez, quem sabe, levar você de mim

(enquanto eu grito baixinho pra você ficar porque, afinal, em paz, eu te amo)

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estica a mãozinha, dá aqui...



Não fez mais que a obrigação, mas eu agradeci

escrito por Rosa


Às vezes, o mundo é tão bosta e a gente tromba com gente tão ruim e cruel, que, só porque outra pessoa faz o que deveria se esperar para um bom convívio, a gente fica com um perigoso sentimento de gratidão. 

Sim, gratidão é um belo sentimento, então se digo que pode ser perigoso é porque fico pensando o quanto a gente pode se anular com gratidão. A gente faz isso - e digo por experiência própria - por achar que não merecia TUDO AQUILO, que era, talvez, o mínimo para um relacionamento saudável.

Então, listei algumas coisas que a gente deveria lembrar que são partes do que se pensa sobre amor/companheirismo e não uma ação que impossível, desmesurada, ou que a gente não mereça.

1. Cuidar:

Cuidar uns dos outros é o que a gente deveria fazer enquanto humanidade; se a gente incapaz, tem muito mais a ver com o fato de que entramos numa lógica competitiva do que não fazer parte da nossa natureza. Cuidar um do outro, da saúde psicológica e física, é o mínimo que as pessoas deveriam fazer, especialmente se elas se amam.

2. Dar segurança (e não se achar fraco por isso):

O que a gente mais quer nessa vida é se sentir seguro, porque o mundo já traz insegurança até nós por diferentes meios. Às vezes, a gente acha que é normal - porque nos é normalizado isso - que relacionamentos incluam insegurança, medo de perder o tempo todo, ciúme obsessivo, ausências longas, distanciamento, solidão. Não: a gente devia se relacionar com portos seguros, fontes de calma e alegria, algo que nos permita ir além da dor do cotidiano. Ficar longe do seu companheiro e saber que ta tudo bem assim não deveria ser um luxo.

3. Valorizar (não só criticar)

É claro que críticas são importantes e ajudam as pessoas a crescerem, mas, de novo, o mundo já nos impõe um padrão estético-comportamental inatingível e nos violenta por não o atingir; os chefes criticam, os professores criticam, e, vamo combina, não tá fácil pra ninguém: o abraço que aninha tinha sempre que nos mostrar que há algo de muito positivo naquele ser, afinal, a gente escolheu estar perto dele.


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4. Não competir entre si

A consequência nefasta do item 3 é que, não raro, amigos e amores caem numa competição sem fim: quem trabalha mais, quem está mais cansado, quem ajuda mais ao outro, quem está com mais dor, quem precisa de mais isso ou aquilo. Ao invés de acolhimento, passamos a ser a pior pessoa para se conviver, aquela que nos lembra o que não conseguimos ainda.

5. Não expor

É claro que você vai falar do seu namorado para sua melhor amiga, terapeuta, vai falar para sua mãe. Mas o que me incomoda muito é ver casais, ou mesmo amigos, que criticam publicamente o outro e dão os pormenores de suas atitudes, especialmente porque, na maioria massacrante das vezes, não fizeram essa crítica para a própria pessoa. A ideia é expor, não melhor. A piada do 'a fera lá em casa me esperando', feita por homens héteros, os mesmos que dizem que 'casar é um erro' é uma das coisas mais execráveis que se pode imaginar. Daí que é tão comum, que quando conhecemos alguém que não nos expõe a gente fica achando que é sortuda: isso é o mínimo.

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6. Não comparar

Seres humanos são universos inteiros. Não dá para ficar achando que a sua amiga devia ser igualzinha a outra, ou que seu namorado deveria agir igual ao seu ex, ou que sua sogra poderia fazer como sua mãe. Vivemos sempre comparando, mas isso deteriora relacionamentos. É tão maravilhoso se sentir querida por ser quem você e não por não ser x ou y. Não é?

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7. Não ter medo de dizer que gosta

Não faltam textos que elenquem o quanto vivemos uma geração que se valoriza pelo não demonstrar sentimentos. Empiricamente, já constatei que as pessoas menos confortáveis e acomodadas são aquelas para as quais não demonstramos tanto assim que gostamos. Várias pessoas já me disseram que eu deixo os meus relacionamentos seguros demais e por isso eles erram comigo. Não, não, eu me recuso. Eu não vou nunca parar de dizer que gosto, que acho lindo, que acho incrível enquanto eu achar tudo isso. Já experimentou ouvir da pessoa que você curte o quanto ela gosta de você? Pois é...é incrível, e raro. E deveria ser normal. O campo da expressão verbal também é uma forma de existir.

8. Ter empatia com a dor

Na lógica dos relacionamentos competitivos, não há espaço para a empatia. Mas devia haver. Se você, sendo homem cis, nunca vai sentir cólica menstrual, isso não justifica que não possa acolher uma mulher que sinta. E aí, quando trombamos com alguém que não faz ideia do que é ser quem a gente é, mas se esforça loucamente para dividir a nossa dor, estamos diante de alguém que entendeu que qualquer relacionamento - de amizade ou amor - precisa de empatia. E isso é o mínimo.

9.  Ser leal e ético

Isso não é uma ode a relacionamentos monogâmicos, como algumas pessoas podem imaginar. Se tá combinado diferente, tá combinado. Ética e lealdade tem a ver com trair, mas trair não é só pegar outra pessoa: o combinado do casal deve ser respeitado, o combinado da amizade também. Não traia, não espalhe segredos, não faça diferente. E se você encontra alguém ético, não estranhe. Deveria ser a regra.

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10. Fazer do que é de um ser dos dois
A luta de um deveria ser a luta de ambos. Demorei a entender que não são gostos iguais que unem pessoas, mas valores. Não é possível amar uma pessoa e não acreditar no que ela acredita, porque senão, como é a gente vive uma coisa junto? Dividir é importante, pizza, vida, seriados: mas dividir ideologias, sonhos, tentativas de mudar o mundo, isso é incrível, incomparável, maravilhoso. Já me peguei esses dias me sentindo tão sortuda por estar com alguém que compra as minha tretas. Mas, pera lá, é isso mesmo: a gente tem que estar aqui é pra dividir. Se não for, ficamos pelo quê?

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Amar não é fácil, seja amigos ou companheiros românticos. Amar exige doação, carinho, remodelar uma parte da vida e abrir mão do egoísmo. Nem todo mundo está pronto pra abrir mão, a gente tinha que se lembrar disso e não insistir no que não pode dar frutos.

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O mito da performance sexual

escrito por Rosa


Muitos são os resultados do machismo na vida sexual das pessoas: piorado pela pornografia cada vez mais assustadora, temos uma geração inteira de homens que associam sexo à penetração e o fazem de uma maneira - na melhor das hipóteses - ruim.

Essa é uma discussão fundamental e há textos excelentes sobre isso - recomendo ESTE, por exemplo - mas hoje quero falar sobre uma outra realidade que acomete relacionamentos heterossexuais saudáveis com homens que têm total consciência sobre o que são preliminares e a importância delas, o prazer feminino, o respeito sexual, etc.

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Esses homens, por mais legais que sejam, por mais esforçados que sejam, ainda são estruturalmente machistas, isto é, foram criados dentro de uma cultura machista e falocêntrica.

Nesse universo, onde pinto é tudo, a penetração é a marca central do sexo. Numa conversa com uma amiga, ela disse que fazia tempo que não transava, mas ela tinha dito há pouco sobre um incidente ocorrido dias anteriores num sexo oral que o namorado fazia nela: ela se tocou, conversando comigo, que ela também associava sexo à penetração.

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Mulheres bissexuais têm mais facilidade de desfazer essa associação, que, aliás, gera comentários bastante lesbofóbicos: "como vocês transam?", por exemplo, para duas mulheres.

A ideia de sexo ser penetração, além da violência já conhecida, pode gerar uma vida sexual frustrante também para os homens.

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Gente, vamos lá: vida real inclui cansaço, excesso de trabalho, gripe, sono, etc. E, não é raro, que minhas amigas questionem que os namorados querem fazer pouco sexo: aí a imaginação, essa ingrata, entra em cena: "perdeu o tesão em mim"; "o que tem de errado comigo?"; etc.

Mas, se a conversa for esclarecedora, descobrimos que os meninos, muitas vezes, têm preguiça do ato sexual, porque pressupõe que ele durará um longo tempo, que ele incluirá muita penetração - inclusive performática - e de que, como homem, o controle da situação toda talvez recaia muito sobre ele.

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Esses rapazes, envoltos na ideia do homem sempre-forte-sempre-disposto-performático-sexual esqueceram que a masturbação é uma prática que mulheres também curtem e que dispende muito menos energia. Que sexos não precisam ser performances pornográficas - aliás, sugerimos inclusive que não sejam. Que ninguém precisa passar horas transando para ter tido um sexo de qualidade. Que se o cansaço bater, e a mulher estiver disposta, não há mal nenhum de deixá-la controlar tudo.

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Nada como conversar: falando disso abertamente com meus amigos mais próximos, descobri que eles têm mesmo esse medo de parecer pouco. Conversando abertamente com amigas, descobri que elas também não fazem questão da 'trepada do ano' todo dia.

É que a gente ainda acha que sexo é uma coisa pouco orgânica do casal.
Que esse texto sirva como um acalento para quem achou que o problema era só consigo <3



As minhas datas

escrito por Rosa


Eu já falei em outros textos de como me divirto vendo Modern Family, né? Apesar de alguns estereótipos, no cômputo geral das coisas, é a minha série favorita atualmente - talvez perca para OITNB, mas ela só tem uma vez ao ano..,

Enfim, no seriado tem a deusa Sofia Vergara, no papel de Gloria:


E a Gloria é maravilhosa, por mil motivos, mas o motivo de hoje que me fez ter vontade de falar dela é um episódio em que ela marca uma comemoração com o marido, mas ele não lembra exatamente que data eles estão comemorando. Afinal, ela comemora o primeiro beijo, a primeira janta, a primeira noite, a primeira viagem, etc.



O que eu queria ao falar disso? 1: ter várias fotos da Sofia Vergara no meu post; 2: falar do quanto eu gosto de datas e coisinhas e lembranças e memórias. Não tô falando só de relacionamentos românticos, não. Eu gosto de lembrar datas como: dia que dirigi sozinha primeira vez, minhas formaturas todas, meu primeiro beijo (9 de dezembro, inesquecível), meu primeiro carnaval. Eu amo contabilizar anos, sabe? Faz 10 anos que estou na UNICAMP. Acho símbolos em tudo. Quando tem 9, vai dar certo; se tiver 13, não vai. Se for 2+7, perfeito; mas 2+3, credo.

Por quê?


Porque sim seria uma ótima resposta. Porque sou louca, também.

Mas eu tentei achar uma explicação, baseada num texto incrível que li em aula com meus alunos, do Gilbert Durand, sobre imaginação simbólica. 
O texto falava sobre o poder reconciliador da imaginação, do quanto ela é capaz de equilibrar experiências dolorosas, lacunas, etc.

Olha, eu realmente não sei bem o que o Gilbert Durand fala, porque não li a obra dele afundo, só um pequeno texto numa aula, mas de repente aquilo bateu bem fundo e me explicou meu apego imaginário aos dias, às datas, às pequenas comemorações.

A vida tem passado rápido demais e eu percebo claramente isso: sua velocidade me incomoda, porque eu não tenho dado conta de aproveitar a cada segundo do modo como eu acho que deveria.
Por outro lado, gosto muito da minha vida, gosto muito de ser quem eu sou.

Por isso, e porque o tempo vai passando se a gente não segura com os dedos, e porque escorre e porque ele nem existe senão como uma lógica de calendário, eu quero comemorar os dias. É como se, comemorando as datas, eu, imaginativamente, acabasse me reconciliando com tempo que voa.

Eu te entendo, Gloria. Se eu pudesse, eu comemoraria o jantar que eu fui e que me fez enxergar o que eu já tinha visto. Eu comemoraria a troca de mensagens madrugada adentro, eu comemoraria a primeira vez que o sorriso pareceu diferente pra mim. Eu comemoraria a primeira viagem, a primeira surpresa, eu comemoraria a primeira vez que senti saudade. Eu comemoraria a data de término de alguns relacionamentos e o dia exato em que me senti feliz sozinha de novo. Eu comemoraria o dia que os alunos me disseram algo bonito e cada convite para ser paraninfa. Eu comemoraria o dia que mais vezes minha mãe me ligou e o dia que meu pai me deu copos novos. Eu comemoraria o lançamento de todos os livros do meu irmão, e quando tomei coragem de pintar pela primeira vez o cabelo. Eu faria festas de aniversário de idas ao pilates e de bodas feitas com meu urso de pelúcia tão antigo. Até as brigas eu comemoraria. Até as noites sem dormir. Até a ansiedade que não sinto mais. Até o medo teria seu dia de comemoraão.

Você que me lê acha que eu tô louca e que, somando isso tudo que eu quero comemorar aos aniversários e festas juninas, eu comemoraria absolutamente todos os dias do ano.

comemorar quer dizer lembrar junto

Você me lembra, despretensiosamente: mas se você comemorar tudo isso, não haveria dia algum sem comemoração.

E eu digo...

É exatamente isso que eu quero.

(O dia 5 de abri não é um belo dia para gente comemorar uma tentativa?)



Somos Marcella Rosa e Marina Sena, parceiras no blog, na luta e na vontade de mudar - nem que seja um pouquinho - o mundo. O Maggníficas é um pouco de nós, porque aqui tem moda democrática, empoderamento feminino e amor próprio. Nosso foco é a sororidade e a vivência plena de todos os corpos, porque acreditamos que somos todas maggníficas e que todo mundo pode tudo!

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