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Não existe autodidata no amor

escrito por Rosa


Sonhei com o amor. No sonho eu dizia para alguém mais novo do que eu - e que, agora, desperta, não sei quem é - "não te ensinaram como amar". O amor, ele próprio, é nosso, humano, pulsante, ali, presente. Amar, no entanto, é um processo de ensino e de aprendizagem.  É longo, leva uma vida toda; múltiplo, porque se desenvolve como resposta a estímulos diverso que recebemos de diferentes lugares; difícil, porque a gente erra muito até acertar.

Disposição para amar todo mundo tem.  Competência são poucos.

Quem vem acompanhando o diálogo que tenho feito com "O feminismo é para todo mundo", da bell hooks, sabe que eu tenho pensado muito em repensar o amor. Para ela e para mim, também, o amor é revolucionário. A potência transformadora do amor é assustadora. Tão grande quanto a do ódio. Amor e ódio são igualmente importantes para que a vida não seja um ser eternamente levado por ela.

Mas como é possível que alguém não saiba amar?

A infância é crucial. Tratar crianças como seres que não sabem muito bem o que fazem e que, portanto, nos apresentam um suposto cartão de livre passagem ao descaso e a violência talvez seja - certamente é, na verdade - a maior catástrofe. Crianças precisam ser amadas, celebradas e queridas. Não existe nada mais potente como possibilidade de mudança social do que uma criança que foi amada e SOUBE que foi amada.

Não basta amar, é preciso escancarar o amor.

Uma criança amada é um adulto que sabe do seu valor. Que não se rebaixa, nem se subestima. Será uma pessoa que sabe que não merece, de maneira alguma, o sofrimento.

Eu conheço tanta gente que não foi amada. Ou foi, e nunca soube. Ou foi, por pessoas tão machucadas pela própria história que perpetuou um ciclo de associação entre amor e sofrimento. Educar é dolorido, amar não é.  Educar só não será traumático se vier acompanhado pelo amor.

E essas pessoas não aprenderão jamais a amar?

Aprendem, e muito. Mas precisam querer. E mais que querer: precisam trombar na vida com pessoas dispostas a ensinar.
Antes disso, porém, vão espalhar muita dor por aí. Muito sofrimento.
Quem nunca foi amado e protegido como deveria demorará muito a aprender - ou sequer aprenda - como é sério o cuidado que devemos ter com aquele que nos oferece amor.

Não há quem seja autodidata no amor. A vida é mais rápida em ensinar, por conta própria, a solidão e o medo. Daí a importância de sermos todos professores.

O subtítulo do livro da bell hooks é: políticas arrebatadoras. Nada mais arrebatador que amar. Tampouco mais político.



Esse e outros textos da Marcella você encontra AQUI



O que eu digo quando eu digo que amo?

escrito por Rosa


Eu sempre digo para os meus alunos que nem 7 mil anos de filosofia ocidental documentada resolveu essa treta que é o amor, que dirá nós, pobres mortais, filhos da nossa era, impressionáveis com seriados criados por algoritmos falhos?

A gente não sabe o que é o amor.

A despeito de não saber, alguma coisa borbulha dentro da gente entre milhões de outras coisas que borbulham. Eu não sei, sinceramente, uma definição clara do que é amar, mas eu sei o que não é. E isso já me adianta bem a vida.

Ter a clara compreensão de que o amor se dá em modalidades diversas é algo fundamental para desobstruir uma sensação errada que muitas pessoas têm de 'falta de amor' ou de 'não estar amando'. Eu não me lembro de alguma passagem da minha vida em que eu não estivesse amando. Eu sei que tendemos a chamar de amor o amor romântico, mas é incrivelmente parecido o amor que temos por outras relações, a gente só não percebe.

Amor de amigo também deixa a gente com coração partido. A gente também cria expectativas com amor de mãe e de pai. Toda forma de amor gera as mesmas consequências.  O que difere é o quanto o mundo nos prepara para elas. O que eu quero dizer é que é absolutamente aceitável que o amor erra quando esse amor não é o de um parceiro romântico.

Se, por um lado, somos mais generosos em perdoar os erros dos amores não românticos, por outro, somos menos capazes de expressá-los e vivê-los como tal. A gente, às vezes, mecaniza o amar que a gente deve amar  "porque sim".

Mas isso é uma ilusão. O amor acaba em todas as esferas, porque ele é um construto e não é inato. Não tem nada a ver com sangue, não. A vida adulta ensina isso. Quando eu falo com minha mãe e digo que a amo é porque eu e ela construímos esse amor todos os dias. Igualmente quando digo que amo a Marina aqui do Magg, quem eu vejo pessoalmente poucas vezes no ano, mas que nunca sai de perto de mim e se envolve na minha vida e sente comigo.Eu não a amo porque um dia amei e fim.  Eu a amo porque todos os dias é construído por nós o amar.

Apesar disso...

Acho que cada um diz uma coisa quando diz que ama.  Nunca será a mesma coisa. Porque nunca seremos os mesmos. Precisamos e sabemos amar com o instrumental que temos em nossas mãos. E a verdade que tem gente que não ama como a gente. E confundimos isso com desamor.

A gente não sabe o que é o amor. DO OUTRO.

A gente só pode amar como a gente sabe amar e fim.

Por isso, o eu amo você, vindo do outro lado, deve ser recebido  com todo carinho do mundo, mas consciente de que nunca será plenamente acessível seu real significado.  E que bom que não.

Porque se tem poesia nessa vida ela está em saber que alguém nos ama - sabe-se lá como e por que - a despeito de não saber de forma alguma que cara tem esse amor. Mas - é essa a magia - senti-lo, forte, presente,preenchendo todas as partes lacunares do seu corpo e da sua vida, formando um todo inteiro, capaz de começar a segunda-feira dizendo:

como é bom estar aqui.

Boa semana para a gente.


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O contrário de amar é desistir.

escrito por Rosa


Em que condições vocês desistem de uma pessoa?

Tenho me perguntado muito sobre isso. Meu pai fica irritadíssimo quando eu peço para que ele não fume mais charutos e sempre me pede "vá pedir para os seus amigos não fumarem!".  Eu digo sempre a mesma coisa: dos amigos a gente desiste, papai, de você não vou. Porque, ainda que eu sofra imensamente com o sofrimento de um amigo, não há nada no mundo que eu ame mais que a minha família.

Eu desisto de tretas infinitas com macho escroto. Eu brigo até o limite da minha saúde mental, mas eu acabo, ora ou outra, desistindo. Eu jamais desisto de aluno meu que faz comentários machistas.  São meus alunos, gente. Eu não posso nunca desistir deles, sabe?

Sou uma taurina teimosa, eu demoro muito a desistir das pessoas. Dou várias chances até assumir que, não, não adianta mais, cabô, parte pra outra. Quando eu vou, porém, é de vez. Bem difícil voltar atrás. Fico até me exaurir, é verdade. Mas a ida é via de mão única.

E não digo isso só em relacionamentos amorosos.  Já desisti de amigos que esetavam no limite do que eu poderia ajudar. Nada mais poderia ser feito que deixasse aquela pessoa melhor.  E tem gente que não quer mais ser ajudado.  Eu nunca vou negar um ombro amigo a alguém, mas há pessoas nas quais não dá para tentar explicar, cuidar, oferecer ajuda.

É uma pena: a raiva tem mais amor que a desistência; até o ódio tem mais envolvimento que dizer que, enfim, "deu pra mim". Acho seriamente que o contrário de amar é desistir, é simplesmente olhar e admitir, com os ombros cansados: eu não tenho mais o que oferecer aqui.

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Somos Marcella Rosa e Marina Sena, parceiras no blog, na luta e na vontade de mudar - nem que seja um pouquinho - o mundo. O Maggníficas é um pouco de nós, porque aqui tem moda democrática, empoderamento feminino e amor próprio. Nosso foco é a sororidade e a vivência plena de todos os corpos, porque acreditamos que somos todas maggníficas e que todo mundo pode tudo!

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