Entre o Pequeno Príncipe e o seu sadismo disfarçado de liberdade.

escrito por Rosa


Há alguns anos e em outro blog, eu escrevi criticando muito o Pequeno Príncipe sobre aquela frase que aparece em 11 de cada 10 textos bregas: tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.  Essa frase, que é ainda pior pra quem acredita em vida eterna, tem um peso bizarro sobre relacionamentos: a ideia da reciprocidade compulsória.

Mas é óbvio que ninguém é obrigado a estar com ninguém nessa vida e nem deveria ficar por qualquer motivo que não seja a livre e espontânea escolha. O que eu acrescentaria ao texto da Marcella de anos anteriores é um conhecimento que eu precisei sentir na minha pele - e na das minhas amigas queridas - para entender: não ter reciprocidade não precisa significar ser um escroto.

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Somos, enquanto mulheres, treinadas à entrega amorosa.Somos ensinadas à dedicação afetiva, sentimental, à disponibilidade. Somos estruturalmente criadas a nos por de lado pelo sentimento do outro e, enquanto feminista, é sempre uma luta todo dia contra mim mesma para lembrar que a primeira pessoa a quem eu tenho que me dedicar exclusivamente sou eu.

Mas achar que o Pequeno Príncipe exagerou não pode levar a outro extremo: o sadismo disfarçado de liberdade, isto é, porque sou livre vou embora sem mais nenhuma explicação. Esse é só mais um texto dos milhões sobre responsabilidade afetiva que você vai ler por aí, mas tudo bem: é importante dizer o óbvio às vezes, sim. Especialmente quando todos os dias um caso diferente de um homem que diz amar loucamente a mulher resolve, no dia seguinte, que não a ama tanto assim.

Já amei muito uma pessoa que disse que não estava pronta para me amar. E assim nos relacionamos, eu a amando muito, ela não podendo me amar. E eu senti muita tristeza com isso e até um pouco de raiva. Hoje, exatamente no dia de hoje, consigo ver o tamanho da honestidade dessa pessoa, da consciência afetiva de quem sabe ser honesto e dizer: não posso oferecer o meu amor. Hoje eu sei disso, mas nem sempre foi assim.

Todo ser humano quer ser amado: não ludibriar alguém com amor é nobre. Usar disso para convencer alguém a ficar sabendo que não tem nada ali para o oferecer é sádico.

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Tem gente que é doente e tão mal caráter que não enxerga o próprio movimento de prometer um mundo sem ter sequer um grão de areia para oferecer. Não, ninguém é eternamente responsável por quem cativa, mas deveria encerrar com dignidade e empatia a história, mesmo que ela tenha sido escrita por um autor só. Mesmo que você tenha dito que não queria nada - sua boca disse, mas e os seus atos? Mesmo que você tenha avisado desde sempre que não daria certo. Ter cuidado ao encerrar um relacionamento diz muito mais sobre empatia do que sobre amor. Muito mais sobre ética. É fácil pensar no outro quando a gente está apaixonado, mas quando a outra pessoa não é mais quem você ama, é preciso olhar para ela como um ser humano, um universo todo, e não como um empecilho para sua diversão. 


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