Tiozinho e tiozão e o humor que a gente não aguenta mais

escrito por Rosa


Há um pressuposto egoísta nesse título: eu não aguento mais. Sério, deu pra mim.
Não, queridos, esse texto não propõe que se cace a carteirinha de humorista de ninguém, não.  Eu só quero, como cidadã feminista, expressar minha opinião – como me é garantido por lei – sobre a qualidade do humor oferecido e do quanto algumas coisas simplesmente não são críveis no meu cotidiano. Se você pressupõe que a crítica é uma forma de censura, sugiro que:

1.       Você leia mais sobre o que significa liberdade de expressão;
2.       Você pare de ler por aqui, esse texto vai incomodar.

Tudo começou quando eu fiquei, por questões técnicas, sem a possibilidade de vincular o meu celular ao carro para ouvir música. Uma pessoa que eu gosto demais comentou que a Dumont FM tinha uma certa atualidade na escolha das músicas e que eu poderia conhecer.

Eu sou professora, todo mundo aqui sabe. O que nem todo mundo sabe é que, quando não estou dando aula, estou dirigindo. Isso porque, atualmente, trabalho em quatro cidades diferentes. 
Resultado: sem celular para ouvir música e podcast, eu acabo precisando ouvir muita rádio.

Às 7h30, de uma manhã linda de sexta-feira, eu fui apresentada ao programa matinal, supostamente de humor, que reproduz um formato que tem feito muito sucesso – notícias comentadas com humor e entrelaçadas à reprodução de músicas – o nome é “Se Liga” e é apresentado/comentado pelos locutores que se autodenominam “Tiozinho e Tiozão”.

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Na primeira vez que ouvi o programa, nada de muito novo sobre o sol: alguns comentários machistas, gordofóbicos etc. A gente fica sempre esperando que seja diferente, mas, no fundo, a gente sabe que um programa que toque o grande público, ainda muito violento e pouco sensibilizado pela discussão da diversidade, faz sucesso. É uma pena, mas faz.

O meu celular voltou a funcionar vinculado ao carro, mas uma vez por semana, em que entro às 8h30 na escola – portanto, pego o horário hábil do programa – resolvi fazer a experiência antropológica de acompanhar aquele festival de comentários escrotos.
Eu não tenho memória – graças a deusa – para lembrar todos os absurdos que ouvi, mas alguns me marcaram mais.

Listo:
1.   Uma notícia trazida sobre a transpiração ser, em média, 5 vezes maior em homens do que em mulheres, cujo comentário engraçado foi dizer que um TRAVESTI transpiraria 2,5, AFINAL...
2.     Uma piada sobre papai noel que não daria presente para morador de rua, porque papai noel só dá presente pra quem comeu direitinho o ano todo;
3.       Uma piada sobre uma notícia que narrava a história de uma noiva que tentou matar o noivo, mas não carregou a arma. Na piada, constava que, afinal, a única coisa que faz mulheres brigarem com seus parceiros é a existência das AMIGUINHAS, as quais são referidas no diminutivo e apelidadas de biscates. Reproduzo: “tiozão, e quando a mulher chama até a nossa mãe de biscate... quem é aquela biscate? É a minha mãe, amor”.

o     Isso foi no último sábado, dia 12 de agosto. Outra coisa que aconteceu também foi o seguinte adendo. “Vai vir uma feminista dizer que a gente disse que mulher não sabe atirar, mas porra, ela escondeu a arma no vestido e não carregou” (blablabla...).

o       Tiozinho e tiozão: eu estava bastante disposta a não escrever para vocês, porque eu acho mesmo que essa mudança do humor vai acontecer na velocidade de um jabuti com preguiça pós-almoço, porque enquanto houver gente rindo de vocês, vai haver vocês. Vocês, enquanto instituição, sabe? 

Vocês não são ruins, não. Eu acho que humor tem muito de velocidade, e, especialmente o tiozão, é muito sagaz na construção das piadas. E vejam: eu não estou aqui para dizer a vocês que parem de fazer essa piada, porque, sinceramente, não vai fazer diferença.  Se vocês pararem, alguém entra no seu lugar e fica tudo igual.

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Mas seria absolutamente contraproducente e mesmo contra meus princípios que eu ficasse quieta, diante da constatação de que o “somos os mesmos e vivemos como os nosso pais”, quase sempre tem significado a manutenção das mesmas estruturas linguísticas escrotas que relegam minorias ao lugar do ridículo. Será mesmo que você acredita que o valor das pessoas se dá pela orientação sexual delas? Você acredita mesmo, prezado tiozão, que a prática sexual de alguém - como fazer sexo anal, que vocês gostam tanto, mas tanto tanto tanto tanto de comentar - é assim TÃO interessante? Se "dar o cu" como vocês dizem a cada cinco minutos fosse sinal de mudança de caráter, eu imploraria para que alguém fizesse a gentileza de transar com vocês, porque é leviano - para não dizer cretino - o que vocês fazem.

Durante a manhã, que é um horário que tem criança ouvindo. Criança devia ser proibida de ouvir violência, não outras coisas. Vivemos num país que chama tentativa de ensinar diversidade de "ditadura gay", posicionamento político de "femininazi", mas autoriza que um programa de rádio, às sete da manhã, submeta qualquer uma delas à exposição de uma sexualidade nada saudável, de um relacionamento infeliz com o trabalho e de toda sorte de traumas com a diferença.

Aliás, vale incluir ainda que vocês são o retrato mais fiel de uma sociedade decadente, não só em termos de humor, mas de produção artística como um todo. Vocês estão fazendo na rádio, em horário que qualquer pessoa pode ouvir, um humor que não era considerado inovador nem na década de 70 da "Praça é Nossa".

É deprimente.

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E eu nem vou me dar ao trabalho de comentar a sua imagem, porque eu não sou dessas.

Hoje, vou dormir com o meu EGO – ego mesmo – satisfeito porque os meus alunes sabem que o humor de vocês não representa todos – a maioria sim, não todos – os adultos do mundo.  A vida adulta não precisa significar esperar a sexta-feira, morrer de medo de falar de homossexualidade e de sexo anal; não precisa, acima de tudo, ridicularizar o próximo para viver.

Num mundo em que tiozinho e tiozão parecem ser a representação mais fiel dos nossos tios mesmo, a titia aqui quer dizer que:

Tem quem não aguente mais.





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