Mulheres que roncam: elas existem

escrito por Rosa


Eu ronco. Demorei anos para entender qual a relação disso com uma construção de ideal de feminilidade, anos mesmo. Sinceramente, eu me liguei que isso acontecia exatamente na última quarta-feira, famoso ONTEM.
Eu ronco desde muito pequena: tenho rinite e o formato do nariz/boca influenciam nisso. Minha família ronca, minha avó roncava. Fiz exames, fui atrás, não adianta: antialérgico alivia mas não passa. Respiro pela boca inclusive quando estou estudando numa boa.

Até aí, você pensa: o que tem a ver uma coisa com a outra?

Quando era criança, o fato de eu roncar - e ser sonâmbula - era uma brincadeira na família, nada muito sério, sabe? Era um pouco constrangedor viajar com os amigos e ser motivo de piada no café da manhã, mas nada que eu não desse conta de lidar.

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Mas conforme fui crescendo e tendo relacionamentos amorosos, fui ficando cada vez mais incomodada. Isso porque, em todos os ideais femininos, a moça está dormindo como um anjo, acorda toda fofa, com beijos do namorado, depois de uma noite de conchinha.

Seria mentira se eu dissesse que nunca consegui dormir de conchinha e de que não fui acordada infinitas vezes com beijinhos. Ao longo da minha vida amorosa, eu tive - por sorte - companheiros que dormiam com barulho, bem rápido e agarrados a mim.  Teve caso de acordar com a plaquinha que uso para evitar ranger os dentes na cara dele e tava tudo bem... Mas isso nunca inibiu o fato de existir um padrão de feminilidade até pra dormir.

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É horrível imaginar que a pessoa que dorme com você está dormindo mal e que muito provavelmente ela descansa bem melhor longe de você, mas o mais horrível é a ideia tenebrosa que se constrói da sua imagem dormindo: o ronco é associado ao bêbado, ao parvo, ao ridículo e ao grotesco, em todas as representações cinematográficas e literárias que a gente vê por aí.

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E ainda que existam N motivos associados ao ronco, a relação com a obesidade é insistentemente marcada - ainda que, no meu caso, o médico tenha dito que emagrecer mudaria pouco ou quase nada.

Reitero: nunca houve uma pessoa que se relacionou comigo que me fez ficar negativa com a questão do ronco, não. É um padrão social mesmo, tão enrustido, tão encrustado, tão perverso que, às vezes, a gente nem sabe como ele acontece, mas se fecho os olhos vejo as princesas da Disney - especialmente a Aurora - dormindo linda e plácida de barriga pra cima.

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I know, i´m not a princess, mas se eu tiver que revelar um segredo íntimo, desses que poucas vezes a gente conta - no caso, escancara - publicamente, eu diria isso: 

eu ronco, e isso me entristece.

Não me atrapalha dormir, não me faz acordar cansada - quando estou sozinha, veja só. Eu durmo mal quando  sinto que estou incomodando alguém, passo a ter pesadelos, me sentir péssima e ter um dia horrível no dia seguinte. Quantas vezes deixei de dormir no busão por isso? Nem sei.

Eu ronco, e isso faz com que eu me sinta pior, 
mas...

A gente é o que é, e se isso não machuca a nos mesmos e temos pouco poder para mudá-lo, basta que a gente aceite, sorria e relembre do nosso bom e velho amor próprio.


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