O que é lugar de fala e como devo respeitá-lo?

escrito por Rosa


Há algum tempo, um grande amigo me pediu (antes nunca que tarde, Gabs) que eu escrevesse um texto que explicasse, de maneira didática, o que é o conceito "lugar de fala", que tem sido amplamente discutido, especialmente quando falamos sobre minorias e as opressões sofridas - racismo, machismo, homofobia, transfobia, etc. Eu enrolei pra escrever por vários motivos, um deles é que eu não me achava suficientemente preparada e porque acho que já textos muito melhores sobre o assunto, como esse AQUI.

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pra falar!

Acontece que, em aula, eu tive que explicar esse conceito e, quando a gente entra no modo professora, acaba criando alegorias e metáforas que facilitam a explicação de conceitos: é um fenômeno maluco, o tablado sempre me permite ter ideias que, se forçasse para ter em outro momento, jamais conseguiria. Bom, antes de mais nada é preciso separar as formas de conhecimento: é possível conhecer o mundo de várias formas, e desenvolvemos, ao longo da vida, duas principais - aquela vinda pela experiência e aquela vinda pelo conhecimento conceitual.

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O conhecimento empírico - vindo da experiência - inclui ter vivido movimentos para compreendê-los. O conceitual é basicamente: "senta que eu te ensino por a+b". A escola tradicional, por exemplo, tende a valorizar sobremaneira o conhecimento conceitual. Hoje em dia, porém, novas pedagogias passam a querer trabalhar mais com o conhecimento empírico - proporcionando aos alunos experiências que os permitam vivenciar o conhecimento.

Se, por um lado, algumas disciplinas se embasaram muito fortemente no conhecimento conceitual - como é o caso da metafísica e de alguns ramos da matemática -; por outro, algumas ganharam uma nova forma quando pensadas pelo conhecimento empírico, é o caso por exemplo da antropologia e da vivência de campo (ir até algum lugar e viver a experiência para relatá-la na forma de uma etnografia, por exemplo).
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No que diz respeito a movimentos sociais, é preciso pensar na importância da experiência. É lógico que é fundamental que a gente discuta a história do Brasil para entender a estrutura escravocrata que a ainda tem aqui, mas é tão fundamental também ouvir como essa experiência se recria na vida de um negro para que haja a possibilidade de mudar essa trajetória.

Enfim, a alegoria é: quando há um restaurante no bairro e o indivíduo A foi ao restaurante e o B não foi, perguntamos ao A como ir até lá, e não ao B. O B talvez tenha estudado a história do restaurante, lido resenhas sobre o restaurante, MAS ELE NÃO VIVEU A EXPERIÊNCIA.

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Movimentos sociais tratam sobremaneira sobre a experiência de rejeição e de SILENCIAMENTO: minorias são caladas e rejeitadas de diversas formas cotidianamente. Assim, não é só que necessário ouvi-las para entender o que está acontecendo, mas também porque OUVIR quem NÃO PODE FALAR POR ANOS também é um ato político.

ps: isso não significa que não há espaço para diálogo, mas isso eu conto outro dia.


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