Nascer é muito comprido

escrito por Rosa


Ontem, assisti "A Bela e a Fera". Entre minhas companhias, estava a Gabi, minha amiga e roomate, com quem divido queijo e frustrações filosóficas. Ficamos acabadas de tanto chorar, ambas amamos o filme e queríamos ver a semana toda, recordando aquele traquejo infantil de nunca enjoar das mesmas coisas.
essa é a Gabi


Do meu lado também tava o Júlio, e o Júlio ama contar histórias. O Júlio gosta, inclusive, de me contar as mesmas histórias sempre. No começo, eu achava que deveria avisá-lo: "ei, cê já me disse isso", mas ele ficava tão bravo quando eu fazia isso que fui parando. Parei por educação. Mas ele me disse uma coisinha que ficava martelando: "por que você não me escuta como se fosse a primeira vez que eu conto?"

Esse é o Júlio

Voltemos pra Gabi: eu e ela ficamos discutindo o filme e pensando porque aquilo nos comovia tanto. Mesmo sabendo, por exemplo, de várias críticas feministas ao enredo, eu NÃO CONSIGO, nem ela, não amar a história. É parte da minha infância, parte da época mais feliz da minha vida. E eu criei tanta simbologia em cada personagem que abdicar deles seria abdicar de mim mesma.

Mas ver "A Bela e a Fera" ganhou outro sentido ontem. Comentei isso considerando as questões da adaptação desenho X filme, porque não era isso que tinha mudado. O que tinha mudado era meu olhar. A Gabi, muito inteligente sempre, fez uma metáfora linda: "é tipo quando a gente volta para um lugar que parecia enorme quando éramos crianças e não parece mais. O lugar é o mesmo, quem mudou foi a gente!".

Penso no Júlio me dizendo que eu deveria ouvir as histórias como se fosse a primeira vez.
Penso num poema maravilhoso do Murilo Mendes

Reflexão n°.1


Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.



Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.

O Júlio não conhecia esse poema até eu apresentá-lo, mas ele vivia isso na vida dele, recontando as histórias. Quem o escuta não é a mesma Marcella que o escutou antes, nem o mesmo Júlio é que conta.

A Gabi também sentiu o que eu senti: damos novos valores e símbolos para a Bela, para o Gaston, para o LeFou (que, aliás, tá apenas maravilhoso nessa versão). Damos novos significados ao que é não se apaixonar pela aparência.

Aliás, eu revi mesmo o que é paixão.



A paixão - essa cega, essa que não deixa ver os defeitos - ela quase sempre redunda numa queda vertiginosa que só se recupera com muito esforço do casal.
Mas, se não cega, não é paixão?
Se não machuca, não é paixão?
Se for construída, não é paixão?

Acho que é sim. Uma paixão que deixa ver cada defeitinho. Que atrapalha a convivência, porque nem tudo é um mar de rosa. Que vem com traumas, passados, mas que também carrega um bocado de sonho. Uma paixão que começa achando que a Fera é bem pior do que parece. E não é que ela fique perfeita depois, não. É que a gente dá conta de amansá-la mesmo assim, porque quer - e não porque precisa - fazer isso.

A Gabi e o Júlio são irmãos e eu sempre fico achando que eu tirei de sorte grande de entrar pra vida deles.


Um comentário:

  1. Estou ansiosa pra ver o filme!!! Agora ainda mais!! Era tb meu preferido!!

    http://buscadomeupadrao.blogspot.com.br/

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