Cada um sabe da sua luta

escrito por Rosa


É muito libertador começar a se aceitar: seja qual for o motivo. Quando fazemos parte de minorias, começar a entender que não é saudável a relação de opressão a que estamos submetidos é um grande avanço; o segundo passo, geralmente, costuma ser lutar pelo fim dessa opressão.

Não raras vezes, Cam contesta o lugar de homossexual e de gordo engraçado

Não é estranho que nessa luta a gente encontre quem não o faça - ao menos não da maneira como a gente espera. O humorista negro que faz stand up com o humorista branco, cujo mote principal de piadas é ser racista com o colega. Ou a atriz gorda que se submete incansavelmente ao papel de engraçada-rejeitada. Ou, ainda, aquela sua amiga que reproduz a piada machista que aprendeu. A gente olha pra isso tudo e se pergunta: O QUE TA CON TE CE NO



Mas a verdade é que é fácil de entender. Quem faz parte de uma minoria, passa a vida inteira sendo subjugado, maltratado, oprimido, deixado de lado. E isso dói pra caramba.
Entrar numa luta é, de fato, emancipador, mas ISSO NÃO SIGNIFICA que não dói.
Todo mundo sabe muito bem que encarar a pessoa gorda como inevitavelmente engraçada é um ato burro e gordofóbico. E quem não acredita nisso, geralmente tem cinco ou seis exemplos de gordo muito engraçados. É claro que tem gordo fazendo piada sobre ser gordo: é menos dolorido a gente fazer piada do que outra pessoa fazê-la. Além disso, talvez essa seja A ÚNICA forma que essa pessoa encontrou de se incluir numa sociedade que insiste em dizer que o humor é só um jeito de fazer rir.



Nessas horas, dá vontade de sacudir a pessoa pelos ombros e dizer: OLHA, você não precisa disso. Não faça piada de você mesmo, amigo gordo. Ou quase implorar para aquela sua amiga não reproduzir tanto machismo... Dá vontade, eu sei.

Mas olha para você.
O que você já perdeu por sem quem é, lutando?
Quantos amigos se afastaram?
Quantas rodas você desfaz quando chega?
Quantos empregos você nem foi chamado para entrevista?
Quantos relacionamentos amorosos sequer começaram?

O gasto emocional e psicológico de falar das coisas é alto. Nem todo mundo quer, precisa, pode, está disposto. E a gente não tem direito algum de reclamar disso, de pedir, de mandar sair do armário, da piada, da lógica. A gente só tem o direito de ouvir e dar voz, se essa pessoa quiser falar. Não tem só o nosso jeito de mudar o mundo

cada um sabe da sua luta.


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