Miss Canadá, ser gorda e a falácia do óbvio

escrito por Rosa


Quem acompanha esse blog ou qualquer outro blog que discuta questões como gordofobia, moda democrática, minorias estéticas, feminismo, etc, ficaria meio passada com a seguinte informação.

CHAMADA DE GORDA, MISS CANADÁ RESPONDE A CRÍTICAS

Você já acha estranho uma miss (?) ser chamada de gorda (?)

Mas aí você confere a Miss Canadá:


Aí, você, que NEM TAVA VENDO O MISS UNIVERSO, só acompanhando as bostas no facebook descobre que:

Na Band e na TNT, os comentaristas disseram que ela tinha um corpo inadequado pro concurso.
E que ela, quando rebateu as críticas, disse que o Miss Universo não era mais como antes, MAS UM CONCURSO QUE PREZA PELA DIVERSIDADE.
E que tão dizendo que esse é um caso extremo de gordofobia
E mais: QUE ELA MERECIA GANHAR POR SER UMA PESSOA MAIS NORMAL
E MAIS AINDA: que é um ABSURDO essa mulher dizer que sofre.
e
e
e
ERROR ERROR ERROR



foi tanta coisa que eu parei de ler. Não dei mais conta, travei todinha.

É claro que essa mulher não é gorda, mas isso não significa que as críticas feitas não estão sustentadas no mesmo padrão opressivo, misógino e violentíssima que afeta mulheres gordas.
É claro que o Miss Universo não é, NEM FODENDO, um concurso que preza pela diversidade, e a gente sabe bem disso.

Mas não é massa que ela seja um pouco diferente das demais?
Não sei. Massa seria não existirem mais concursos de beleza. Véio, desde o século XIX a filosofia já sabe que não existe um conceito unívoco de beleza, porque é que a gente insiste tanto nisso? Em simplesmente escolher uma pessoa para representar o irrepresentável?

(eu sei, o capitalismo, a compra, a violência autoinfrigida gera lucro)

Não haverá diversidade enquanto a opção for dizer para uma mulher não-extremamente-magra que, afinal, ela não é gorda.

E que gordofobia é bem mais complexo que ser chamada de gorda. E que é todo dia; e que não fica tudo bem só dizendo que tá tudo bem no instagram, afinal, você está feliz assim.

E não é sua culpa, Miss Canadá. Eu acredito muito quando você diz que sofre - sofre bem menos que a gente, eu sei, mas isso não vai impedi-la de sofrer. É preciso lembrar, porém, que não tá nada fácil pra gente aqui e que NÃO É BURRICE SOFRER POR ESTÉTICA.

Não aguento mais ouvir que "uma mulher esclarecida como você" ache realmente que é tão importante ser aceita e amada esteticamente.
É sim.
Desde que eu
você
sua prima
sua irmã
e toda mulher que você conhece
NASCEU
fomos ensinadas a ser LINDAS, MAGRAS, ESTETICAMENTE ADEQUADAS.

Sim, eu li Marx. Bourdieu. Simone de Beauvoir. Naomi Wolf. Judith Butler, e quantas mais você imaginar e
SIM!
eu sofro por não estar no padrão estético. Menos? Menos, porque trabalho diariamente com a minha autoimagem e refletindo muito muito muito. E sempre consciente que eu ainda sou privilegiada dentre as gordas.



O que a gente faz quando chama a Miss Canadá de gorda?
Massacra mais um pouco a autoestima de inúmeras, que tão tentando construir esse murinho de proteção e amor próprio.

PARABÉNS,  MUNDÃO!

Esse é mais um texto pra dizer o que a gente sabe que é óbvio, mas por ser tão óbvio talvez a gente esqueça:

ser humano é uma bosta.


4 comentários:

  1. O ser humano, como o nome diz é humano porém pessoas que tratam o ser humano como produção em série são apenas um robô com o cérebro programado para excluir o que não aceitam. Cabe a nós acabar com a gordofobia que é mais que um preconceito é a exclusão da própria raça humana por não pertencer ao padrão imposto pela sociedade.

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  2. O ser humano, como o nome diz é humano porém pessoas que tratam o ser humano como produção em série são apenas um robô com o cérebro programado para excluir o que não aceitam. Cabe a nós acabar com a gordofobia que é mais que um preconceito é a exclusão da própria raça humana por não pertencer ao padrão imposto pela sociedade.

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Somos Marcella Rosa e Marina Sena, parceiras no blog, na luta e na vontade de mudar - nem que seja um pouquinho - o mundo. O Maggníficas é um pouco de nós, porque aqui tem moda democrática, empoderamento feminino e amor próprio. Nosso foco é a sororidade e a vivência plena de todos os corpos, porque acreditamos que somos todas maggníficas e que todo mundo pode tudo!

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