Os silenciosos e o desespero

escrito por Rosa


A gente que fala muito o tempo todo sobre tudo tem tanto a aprender com quem não fala. Uma das pessoas mais importantes para minha vida não falava. Era quieto, bem quieto: respondia sim e não, quando conveniente. Fazia a piada certa na hora certa. Não que ele não amasse as palavras tanto quanto eu - ele amava, sim, mas amava tanto que cuidava com zelo na hora de usá-las. Ele não dizia 'te amo tchau' como quem desliga do telefone de uma pizzaria. Eu não entendi o silêncio dele várias vezes e achava que era descaso. Se eu pudesse voltar no tempo eu diria: olha, tá tudo bem, tudo isso aqui que é você já me diz o suficiente. 

A verdade é que a gente vai passar o resto da vida estranhando o outro. A gente que se afoga na nossa própria lógica de existência tem uma dificuldade imensa de entender o outro funcionando: nessa vida, porém, quando a gente se depara com o diferente, a gente pode optar tentar entender ou meramente ignorar.

Eu ignorei um monte, por anos. Eu sempre tentei fazer as pessoas funcionarem na minha lógica.  Se você gosta, então me diz. Se não gosta, diz também. A vontade que me dá é dizer, bem alto: "Escreve, me deixa um bilhete, grita na minha sacada, produza uma frase inteira e não me deixa com a ambiguidade do seu sorriso - que é bonito demais e me confunde. Fala se quer ou se não quer. Não me deixa com metade da resposta que eu vou necessariamente preencher. Não me dê tanto espaço assim pra pensar"
Mais velha e mais cansada, hoje, eu inverti: quero que me apresentem o outro lado.

É difícil, especialmente quando as pessoas não falam, porque aí elas exigem da gente um esforço imenso de compreensão: do gesto, do sorriso, do estar ou não estar. Quando a gente é velha de guerra da análise de texto, esquece que existe um universo de linguagem produzindo significado sem dizer absolutamente nada para significar tanto, quase tudo.

Esse é o meu aprendizado da vez.

Se eu consigo lidar com essa realidade do não-dito e da ambiguidade? Não. Ainda não. Eu sempre desacredito do que passei acreditar há minutos. Tenho uma inteligência limitada ao escancarado. Ah, que dificuldade.
Meu cérebro me sabota, tentando me fazer acreditar que eu criei tudo aquilo e que é melhor ficar com o que tenho de concreto: um imenso e longo silêncio.



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