O corpo

escrito por Rosa


Escuto o chuveiro enquanto fico pensando se não era melhor que ele estivesse desligado enquanto eu estou fora dele. Meu corpo diz uma coisa. A presença do outro é sempre a presença do outro e lidar com ela nem sempre é fácil. Quanto mais eu envelheço, mais eu tenho incerteza do que eu quero. Nem o que eu não quero eu não sei bem. Sei o que eu não deveria querer. O lacinho de cabelo ficou jogado do lado da cama, junto com aquilo que eu acho que deve ser o nosso medo do desconhecido. Alguns copos vazios e a luz forte do abajur, transformada em vermelho. Os corpos, mesmo afins, eles se estranham. Meu corpo diz outra coisa. A gente não sabe bem como encostar um no outro, mesmo que pareça que a gente sempre soube. A gente nunca vai saber o que é o outro, mesmo que paixão pareça ser uma dessas cartilhas que prometem ensinar. Quanto mais eu tento entender os corpos, mas a razão me puxa de volta, lembrando que a vida humana - essa que cria conceitos e filosofias e amores e histórias sem pé nem cabeça - sempre supera a beleza barata e oldschool da biologia. Na supremacia das disciplinas, eu sempre acreditei mais no ar que na terra. Na psicanálise do que no signo. No conceito do que no empirismo.
Mas o corpo.
O que acaba com meu ótimo argumento retórico, no fim das contas, é o corpo.

pelo
pele
saliva
cheiro


Não há linguagem mais certa.
Não há nota mais bem tocada.
Não tem rima que se perda.

Quando a gente se encosta.



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