Do que eu renasci

escrito por Rosa


Vi essa imagem circulando pelo facebook...



No post, dizia para as pessoas pararem de encher o saco de quem realmente vê no ano novo uma possibilidade de renascimento. No ano passado, escrevi exatamente sobre isso. Como é chata essa galera do 'é só um dia', 'o ano é inventado', 'não existe isso', especialmente quando a gente gosta da virada do ano - como eu adoro!

Mas 2016 foi dureza.

O reconhecimento quando vi essa imagem foi quase obsceno.
Esse ano eu saí rasgando de mim mesma, as unhas repuxando cada poro da minha pele. Eu saí de uma camada grossa de mim  que não se permitia errar, que não se permitia cansar, que não se permitia dizer não, que não sabia nem recusar trabalho, nem admitir derrota.

2016 foi o ano que a vida me obrigou a olhar no espelho e dizer: tu erra pra caralho, mulher. Cê é fracote, cê não dá conta. A minha competitividade era comigo mesma, querendo sempre me superar. Estudar e ser melhor. Trabalhar e ser melhor. Estar aí, sempre, para os alunos, para os amigos, para a família. Eu sempre estava e forte, e sorrindo e acolhendo. E dando conta de tudo.

2016 foi o ano que as circunstâncias me recordaram que o meu corpo é frágil, é pura matéria. Que não dá para ter um dia com mais de 24 horas e que não - simplesmente não dá - para passar uma vida dormindo 5 horas por noite, acordar e dormir trabalhando, escrevendo, produzindo.

Faz tempo que eu descobri que eu não era o gênio que eu achava que era na adolescência, mas foi em 2016 que eu, apunhalando a mim mesma como num crime passional cinematográfico, percebi que eu não dou conta de fazer tudo sozinha.

Eu pedi ajuda. Pedi arrego. Fui para terapia. Olhei pra dentro de mim, como nunca antes.

Em 2016, eu descobri que sou bem humana mesmo. Não me obriguei a não chorar na frente de alunos. Não fingi indiferença ao meu próprio sofrimento. Olhei para o que eu tava comendo, com cuidado. Voltei a me exercitar e achar o prazer que sempre tive nisso. A duros e violentos rompimentos, redescobri o que eu amo em mim. Como eu não sou tão difícil assim de conviver. Eu lembrei que o meu sorriso sai mais fácil que a minha testa franzida. Eu não sou tão brava, assim. Nem tão neurótica. Na verdade, eu só estava vivendo em guerra, há tempo. Eu tava em alerta, em combate. Eu tava no contrário da zona de conforto. Eu tava na trincheira que eu mesma construí.

Como dolorosas lições, veio 2016.

Eu me abracei, pela primeira vez, com o carinho com que abraço e acolho meus alunos e amigos.
Eu gostei do que vi no espelho.
Eu me sinto sortuda de novo.
Eu voltei ao meu estado de poesia.

Só em 2016, aos 27 anos, eu comecei a cuidar de mim.


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