Da morte, do fim e do recomeço

escrito por Rosa


Passei a manhã em aula. Não mexi no celular. Encontrei uma amiga querida, cheia de luz e almocei com ela. Vim para casa e só então peguei no telefone. Uma amigo muito querido me escrevera: "Como você lida com a morte?". Eu travei na hora. Achei que tinha acontecido algo com ele e quase sai voando até onde ele estivesse e me liguei o quanto a vida dele é importante. Ele se referia à tragédia com o avião do Chapecoense que eu só fui saber agora pouco.
Hoje é meu dia de escrever aqui e eu ia falar sobre amor, vinha planejando desde ontem esse texto. Não havia, todavia, espaço em mim para falar de outra coisa.

Como você lida com a morte?

Eu não lido. A única pessoa que eu amei que morreu foi a minha avó. Eu apenas não lido com a morte dela. Eu tatuei ela no meu pulso: beijo, converso, vejo ela em sonhos, sinto o perfume dela pela casa. Eu lido com a morte dela dizendo pra mim mesma que ela nunca foi embora, ela sempre esteve e ainda está aqui.

Eu não sei se é proteção ou crença, mas eu não lido com o fim das coisas importantes. Acho que as coisas não necessariamente se esgotam quando vão embora. Há o que foi plantado e que fica, o que muda com o tempo, mas que não significa terminar.

Esse mesmo amigo sempre fala sobre a impermanência, ou seja, saber que nada é permanente. Isso, diz meu amigo, é o que nos dá a dimensão de que as previsões, os planos e as  zonas de conforto são apenas ilusão.

A verdade é que nunca estaremos preparados para a morte, porque nunca estaremos preparados para o fim de nada. É por isso que há na impermanência o consolo, mas - e desculpe, meu amigo, se eu reescrevo suas ideias - se as coisas mudam, elas não acabam simplesmente.

Ressignificar existências é dar nova vida - e não fim - a elas. E isso é humanamente necessário ou existir perde sentido. A gente precisa se livrar do apego, é verdade. As coisas passam, é verdade. Mas não acho que é porque elas deixam de existir e fim, apenas porque a existência delas se recolore de um novo tom, toca numa nova melodia, sabe? Como se o barulho virasse música que virasse gota de água caindo na pia que, por fim, viraria um latido do cão do vizinho. O som, porém, não vai embora.

É assim que eu lido com a morte: como possibilidade de uma nova vida. É assim que eu lido com o fim e com o luto: o carinho ganha uma nova forma de ser visto. Os perfumes ganham um novo olfato, as músicas, novos sentidos. As mãos de minha avó não enlaçam as minhas, mas elas nunca deixaram de me acarinhar.

E, no fim, falando de dor, de luto e de morte, eu acabei falando de amor. Porque essa é a lógica única que pode reger o (meu) mundo: a do reencontrar o sentido, porque o amor - esse sim - permanece.



Nenhum comentário:

Postar um comentário


Somos Marcella Rosa e Marina Sena, parceiras no blog, na luta e na vontade de mudar - nem que seja um pouquinho - o mundo. O Maggníficas é um pouco de nós, porque aqui tem moda democrática, empoderamento feminino e amor próprio. Nosso foco é a sororidade e a vivência plena de todos os corpos, porque acreditamos que somos todas maggníficas e que todo mundo pode tudo!

maggnificas@gmail.com