Gorda

escrito por Rosa


Oi, meu nome é Marcella. Sou professora, feminista, louca por vermelho e gorda. Todas as minhas características dizem que eu sou. Tenho defeitos insuportáveis: sou explosiva, sou egoísta, tenho péssimo humor com fumo, não tenho paciência para quem não é meu aluno, sou insegura academicamente, sou desorganizada e desmemoriada. Note que nem gorda, nem feminista são coisas que identifico como defeitos.

eu me apropriei do desenho do Millôr <3

Ainda assim, algumas pessoas insistem em me ofender dizendo que, afinal, eu "sou uma gorda feminista". Sou, exatamente isso que eu sou. Até meu mapa astral pode ser ofensivo, mas minha gordura e meu feminismo, sinto dizer: são partes de mim.

Sobre o feminismo fica para outro dia a discussão. Hoje eu quero falar sobre ser gorda.

Invoco uma definição de verbete, estilão professorinha:

Gordo:
1 Em que há excesso de tecido adiposo; corpulento, obeso, rolho:
2 Cheio de substância gordurosa; gordureiro, gordurento, gorduroso:

As outras definições não nos contemplam porque se referem a alimentos, objetos, cal etc.

Ou seja, uma pessoa gorda tem excesso de tecido adiposo. Comumente, o gordo é aquele que tem IMC acima de 30.

Eu tenho excesso de tecido adiposo - que inclusive dobra quando eu sento - e IMC acima de 30. Ok, sou gorda. 
Por que eu deveria ficar triste?

Vamos ver outra definição:
Alto:
1. Dotado de altura; elevado.
2 De grande estatura; grande

Eu tenho 1,73cm (ou 74, sei lá). No Brasil, a estatura média é 10 cm abaixo que isso. Logo, eu tenho grande estatura, logo, eu sou alta. Ok, sou alta. Por que eu deveria ficar triste?
Ser alta não me impede de viver, de trabalhar, de amar, de ser feliz. Ser gorda também não.
A gente sabe que gorda é um xingamento porque sai daquilo que foi previamente estabelecido como bonito.

Tá certo. A gente aqui já sabe disso, vamos para um segundo problema: o que é ser gorda?
Eu sou claramente identificada como gorda quando saio na rua, quando tiro a roupa, quando tento comprar roupas e não encontro algo que me sirva. Mas eu quase não tenho barriga, não sou uma "gorda padrão". Eu deixo de ser gorda?

Não.

Mas eu tenho mais privilégios que outras gordas?

Sim.

O que eu tenho que aprender com isso tudo?
Que o movimento de empoderamento de gordas não pode segregar: gorda é gorda, mas tem gordas de diferentes manequins; não dá para dizer que eu não sou gorda se, em alguma medida, sofro gordofobia.

Por outro lado, eu tenho facilidades que mulheres de manequim 54 não tem. Por isso, as campanhas que se pretendem respresentativas devem SIM inclui-las. E o espaço de fala sobre ocupação social do gordo é primeiro delas, depois minha.
O movimento de empoderamento de gordxs tem muito que aprender com o movimento negro e seu trabalho sobre colorismo e privilégios. Todos sairiam ganhando e muito mais fortalecidos.
Gorda não é xingamento e também não vai ser segregação.





2 comentários:

  1. Oi, Marcella! Sempre leio Maggníficas, adoro!
    Dos meus 44 anos, passei uns 40 me sentindo... gorda! No sentido pejorativo que sempre percebi nas maldadezinhas de meus colegas de escola e, mais tarde, em indiretas de outros colegas. Mesmo com 1,70cm e manequim 46 - que, como você mencionou, representa sim uma gorda mas com mais facilidade na vida do que uma que vista 54, por exemplo, sempre tentei esconder dobrinhas, braço roliço e achando que bonito era só o que se encaixava em padrões de magreza.
    Depois que comecei a ler blogs plus-size, minha mente abriu para ver-me com outros olhos e ser não apenas a "bonita de rosto", mas uma mulher toda bonita, da cabeça aos pés.
    E sabe o que é legal? Antes não admitia de jeito nenhum ser gorda, mas agora até curto a palavra! hahaha como é bom ser livre!!

    ResponderExcluir


Somos Marcella Rosa e Marina Sena, parceiras no blog, na luta e na vontade de mudar - nem que seja um pouquinho - o mundo. O Maggníficas é um pouco de nós, porque aqui tem moda democrática, empoderamento feminino e amor próprio. Nosso foco é a sororidade e a vivência plena de todos os corpos, porque acreditamos que somos todas maggníficas e que todo mundo pode tudo!

maggnificas@gmail.com