Da previsibilidade do imprevisível

escrito por Rosa


Era fim de sábado, em um carrinho de hot dog. Eu tava com muita fome e quando estou com muita fome eu não consigo fazer nada que envolva ser feliz: nem amar, nem conversar. Para não brigar, fico em estado de stand by, em silêncio, até a comida chegar - e se alguém tenta me tirar desse estado de stand by vai ser tratado com muito pouco carinho e quase nenhum respeito. Acho certo ser assim? Num acho, mas eu sou, assim caminha a humanidade etc.


Mas o que aconteceu é que, indisposta para conversar - e meu querido namorado compreende isso - e na espera do tão delicioso hot dog, tudo que me sobrou foi encarar a televisão de tubo, 24 polegadas, que passava a novela das sete. A cena, que durou do intervalo entre eu pedir o lanche e desfrutá-lo com prazer, narrou o seguinte: uma jovem bonita, aparentemente deficiente física (não deu tempo de ter certeza do que era) falava ao telefone sobre um rapaz pelo o qual estava apaixonada, em seguida ela tromba com esse rapaz aos beijos com outra jovem alta e bonita. No momento de tristeza, corre pela chuva e cai, enfiando o pé em um bueiro, correndo o risco de ser atropelada. A tragédia dura pouco, um carro que quase a atropela a resgata. Fim, meu lanche chegou.

Não sei o que acontece, mas posso prever: o bonitão que pegou a outra vai se arrepender e essa vai encontrar amor verdadeiro em outros braços. É previsível, num é? E o primeiro mal da imprevisibilidade das coisas é o tédio.

O segundo, e mais grave, é que ele nos condiciona. A gente é condicionado de uma maneira que já é ruim, mas nossa vida adulta já bateu suficientemente na gente para sabermos que, afinal, isso é novela. Como professora de adolescente, fico me perguntando quanto tempo vamos criar adolescentes para acreditar no impossível e sofrer com o real. Daí, não é ser pessimista e não acreditar no amor, sabe? É dizer para essas meninas que o valor delas está no outro que chega e traz o respeito e amor que ela merece. Não devíamos dizer isso. O valor está nelas e só. E por que essa menina, que viu o cara escroto com a outra, não simplesmente vai embora, assiste um filme e fica em paz? Por que esse cara escroto sempre se arrepende na novela, se a gente bem sabe que as pessoas não necessariamente tem noção da bosta que fazem na existência delas?

e esse filme que finge que faz tudo diferente e faz tudo igual?

Tô de saco cheio da previsibilidade das novelas, já que a vida real é igualmente previsível e nem sempre dá certo. Se a gente ensinasse mais as pessoas que as coisas não dão certo, a gente talvez evitaria que autoestimas fossem destruídas por um mundo repleto de gente preparada para piorar a existência alheia.



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