A dor da gente não sai no jornal

escrito por Rosa


Eu sinto frio, muito frio. Sou dessas pessoas que dormem de meia - mesmo que não queira virar burguês - em pleno verão. Eu sempre tenho um casaquinho comigo, um cardigã, um lenço. Tenho horror à brisa - que não psicológica - e durmo de edredom em dezembro.

Não ligo que as pessoas ridicularizem meu excesso de frio: meus pais, irmãos e amigos sempre dão algum jeito de zuar minha falta de calor próprio, e tem dias que eu chego a pensar mesmo que devo ser pecilotérmica.

Mas tem uma coisa que me tira do sério: quando duvidam do meu frio. "MAS TÁ CALOR"; "TIRA A BLUSA"; "EU DURMO SÓ COM LENÇOL"; "MAGINA QUE TÁ FRIO", entre outras coisas.

Nas últimas semanas, tem feito mais frio que o normal e, ainda assim, ouvi esse tipo de coisa. Não sei se ando mais sensível que o normal, mas a real é que esse papinho me fez pensar sobre o quanto não damos o real significado para dor do outro. Parece que ultimamente vivemos uma competição para ver quem está mais cansado, estressado, trabalhando mais.

E nessa: ninguém ouve ninguém; ninguém ajuda ninguém; as pessoas só querem saber do próprio e imenso sofrimento. O aluno reclama que a mãe não entende como é difícil estudar tanto; a mãe reclama que o aluno não sabe o sacrifício que é criar um filho.

"Tá foda" não deveria ser respondido por "Eu tô pior", não. Não me eximo disso, sou mais uma no coro geral do "eu tô pior".

E todo sofrimento alheio parece menor diante do nosso. É claro que no cálculo geral da incompreensão, o fato das pessoas não acreditarem no frio que eu sinto é inofensivo e banal, mas é que no fim eu me lembro que todo mundo sofre e precisa de colo, enquanto a gente passa tempo demais medindo o tamanho das próprias lágrimas.




Um comentário:

  1. Fantástico. É verdade. Vou me perceber mais. Grata!��

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