Maggnifiquinhas: A mulher da minha vida

escrito por Maggníficas


Quando era pequena me falaram que eu não podia voar. Mais tarde me disseram que também não podia andar. 
Nem sozinha, nem com as amigas, não depois das oito, nem de shorts ou regata, muito menos de ônibus ou metrô e se for de táxi, devia me preservar e não chamar atenção. 

Pensando melhor, devia ficar em casa. É mais seguro, é o meu lugar. 

Queria ser engenheira, mas isso me contaram que não tenho capacidade para fazer, sou mulher, não pertenço naquele ambiente e tanto faz, eu não ia conseguir entender de qualquer jeito. 
Fui procurar me informar sobre, talvez encontrasse em uma revista, mas não tinha nada, apenas umas de receita. Falavam que meu marido ia gostar. Levei. 

Na primeira vez, deixei queimar. Ele ficou bravo, me bateu. Fiquei magoada, mas me disseram que ele estava sobrecarregado e eu não devia ser tão distraída. Coitado. 
Nas outras vezes foi dando certo e realmente, as receitas eram muito boas. Ganhei mais 20 kg. 

Percebi então que depois disso, ninguém falava mais comigo, pelo menos não olhando nos meus olhos. 
Então resolvi me arrumar um pouco, afinal, sempre dizem que mulher que é mulher, tem que ser bonita.

Comprei um batom vermelho maravilhoso e passei. 

Estava me sentindo maravilhosa! 
Cheguei em casa e meu marido veio conversar comigo. Fiquei nervosa, com medo, mas ele disse que eu tinha que parar de chorar. Eu já sabia onde isso ia parar. 

Divórcio. 

O que será que eu fiz de errado? Dessa vez eu não sabia. Será que foi pelo peso? Ou a comida queimada? Podia ser o meu batom novo! 
Ele então disse "você não é uma mulher de verdade, não consegue fazer nada, assim como todas as outras. É um atraso pra mim!" e continuou "Onde que você pensa que vai com esse batom? Essa cor é muito provocante, ninguém gosta!". 
Subitamente, todo o meu medo e tristeza se transformou em raiva, em perguntas. 

O que era ser mulher de verdade para ele? Quem disse que eu não consigo fazer nada ou que meu peso e meu batom não eram bonitos? O que era beleza? 

Hoje descobri que isso quem deve responder sou eu e que posso não ser uma mulher de verdade para ele, mas sou uma mulher de verdade para mim. 
Uma mulher gorda, agora solteira e de batom escuro, sou a mulher da minha vida. 
E para falar a verdade, nunca me senti tão mulher na minha vida toda. 


Anna Crepaldi Czar, estudante, 15 anos, apaixonada pelo seu gato preto Francisco e por filosofia, futura aluna de Psicologia. Membro do Coletivo Feminista Rosa Lilás de Limeira a quase um ano. Alucinada pela arte em geral, principalmente pela escrita e pintura. Não só foi acolhida pelo feminismo, como também encontrou a si mesma nesse movimento, buscando sempre o auto-conhecimento, uma conscientização coletiva e o desenvolvimento de seu senso-crítico. 



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