Academia, suor e as dificuldades de amar ao outro como a ti mesmo

escrito por Rosa


Eu voltei a fazer academia. Precisava urgentemente fortalecer minhas costas - que doem muito depois de horas em pé dando aula - e recuperar o fôlego que perdi. Eu amo algumas atividades físicas, como dança e pilates, mas precisava de algo que se encaixasse a uma rotina completamente maluca como a minha. A única coisa aberta o dia todo e com horário flexível era o quê? Isso mesmo, academia.

Para não me sabotar, eu estabeleci que:
1. não tem que ser gostoso, tem que ser rápido e eficiente;
2. eu escolheria a mais perto da minha casa, sem desculpas para faltar;
3. encararia como um compromisso tão sério quanto meus estudos;
4. o ambiente deveria me deixar confortável, na medida do possível.

Confortável é sempre uma sensação difícil para mim na academia. E nem é porque eu sou gordinha, não. É porque EM GERAL eu não me familiarizo com os bate-papos dos frequentadores. Nem com a razão de estarem ali. Nem com a felicidade em correr. Nem com nada.




Escolhi uma há 3 minutos da minha casa. É grande, logo não fica cheia. Os professores são educados, gentis e não invasivos. A estrutura é boa. Sem desculpas para não ir. E fui. E vou indo, há 3 semanas.

Mas invariavelmente sinto vontade de escrever. Tudo me parece muito surreal para mim.
A começar pelas conversas, o que eu facilmente resolvo colocando um fone com música tão alta que sequer escuto quando gritam comigo. Em geral, as pessoas me cutucam para eu sair do aparelho ou para perguntarem algo. (já aconteceu de esquecer o fone. É HORRÍVEL!)
Além dos pitacos políticos meio absurdos, posso listar que ouvi, nos últimos 15 dias.
1. ninguém gosta de gordo, tem que emagrecer por isso
2. bem que aqui podia ter primeiro ministro (?) igual na Europa (???)
3. os alunos da unicamp só querem saber de fumar maconha e destruir Barão Geraldo

e um monte de coisas menos cruéis e mais bobas que não vou reproduzir aqui.

Mas conheci algumas pessoas muito legais lá, também. Professores, instrutores, a moça da limpeza, alguns adolescentes perdidaços. Enfim, sempre pensando: acabo logo e vai embora.



Conseguindo lidar com esse ambiente que definitivamente não é o meu (só penso em cerveja e vinho enquanto estou na esteira), há uma coisa que eu ainda não superei; O SUOR.

Eu não gosto de suar. Eu não gosto de gente suada. Eu não gosto de encostar suor com suor. Exceto em situações sexuais em que o suor é inevitável, eu odeio lidar com suor. Mesmo se a pessoa estiver cheirosa e eu a suada eu não quero abraço, nem beijo, nem pegar na mão: um tchauzinho de longe é o suficiente.

Mas os instrutores cumprimentam com beijo: na chegada, ok; na saída - suada, fedida, fodida - também. Eu tento fugir, não rola. E não é um bônus dado à gordinha que honestamente cumpriu seu treino. Não. É com TODO MUNDO. Homem, mulher, velho, novo. TODOS GANHAM BEIJINHOS E ABRAÇOS. E todos estão INEVITAVELMENTE suados.

Eu admiro esses instrutores. Acho que o costume muda a relação, mas acho quase poética a possibilidade de viver bem com o suor do outro. Eu não vivo. Acho que a relação estabelecida com o corpo do outro é um processo difícil pra mim, logo, tendo a admirar veementemente massagistas, fisioterapeutas, prostitutas, enfermeiros e os diferentes profissionais que lidam com o corpo do outro - cada um a sua maneira.

E, assim, quando rola, eu fujo. Se não rola, dou beijinho. Não tem muito como escapar.
O jeito vai ser mesmo levar uma toalhinha extra.


ps.1: Isso é só uma crônica, eu realmente acredito se você me disser que na sua academia é diferente e que vocês discutem filosofia analítica;
ps.2: não, eu não acho que academias devem ser ambientes de discussão de filosofia analítica.


As imagens que usei no post foram tiradas DAQUI


Um comentário:


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