Sobre shorts, escolhas e a romantização da violência.

escrito por Rosa


Recentemente, tornou-se nacionalmente conhecido o caso das adolescentes que reivindicavam o uso de shorts na escola, que havia sido proibido por "desconcentrar os colegas e professores". As meninas (que geração incrível vem por aí) organizaram-se, com abaixo assinado online, e com o manifesto pelo uso do short. As meninas solicitavam o básico: poder ser vestir como quiserem.


Eu cometi o grave 344o de ler os comentários. Entre vertentes, encontravam-se com mais frequência o termo "putinhas". Bom, vamos lá: eu tenho um posicionamento claro sobre as profissionais do sexo - e como imagino que deveria ser seu trabalho, o respeito por ele - mas hoje não é o tema. A questão é: o que estão fazendo com essas adolescentes é sempre a mesma coisa: tentar convencê-las de que a única função da vida delas é ser a parceira (hetero)sexual ideal. A única função da vida de uma mulher é ser uma parceira sexual.

Outro dia mesmo escrevi um texto AQUI sobre isso, enfocando nas mulheres gordas. Hoje, porém, generalizo essa raiva ao, logo após ver essas adolescentes serem agredidas, encontrar essa reportagem do Catraca Livre (portal de divulgação em massa, e acessível ao público): 7 coisas que uma garota de programa sabe e você não.

Esse título seria excelente caso tratasse sobre os fatores que fazem a opressão sofrida pela profissional do sexo se agravar ainda mais. Mas não: o texto reporta as 'garotas de programa' a um patamar de conhecimento superior: daquele que sabe mais como agradar a um homem.



Vejamos as sete coisas.

1. O homem quer se sentir o maioral na cama
Do mesmo modo que ensinamos as garotas a não se vestir desta ou daquela forma para não 'incomodar' os homens, dizemos que o momento do sexo - aquele que deve ser do prazer absoluto - deve ser dedicado aos homens. Perdemos nós, obviamente, porque alguém que precisa colocar o parceiro no pedestal jamais desfrutará do prazer; perdem eles, pois têm sua insegurança sexual reafirmada, lembrando sempre que homens vivem numa sociedade que os cria para acreditar que são melhores e nos cria para fazer essa mentira ser convincente.

2. Eles adoram um linguajar sacana
O primeiro problema que se pressupõe que o comportamento sexual da humanidade inteira possa ser padronizado. O segundo é que ele realmente é: por uma indústria pornográfica violenta e misógina. No entanto, esse linguajar sacana se limita ao sexo. Ai de você se falar desse jeito na rua. Quanta vulgaridade seria.

3.Quanto mais intensos os gemidos, mais eles ficam loucos.
O bom leitor de implícitos sabe o que essa frase diz: minta. Encene seu prazer e não o deixe saber que aquele sexo é bem sem graça para você,

4. Um bom boquete pede uma bela perfomance
Repararam no termo? Performance. Atuação.

5.Topar sexo anal é um diferencial.
Não me interessa aqui que sexo anal possa ser prazeroso por algumas mulheres. Interessa dizer que topar O QUE ELE QUER A DESPEITO DO SEU DESEJO pode ser um diferencial. E já que nós, mulheres, devemos SONHAR EM SER A ESCOLHIDA, temos que fazer qualquer esforço. 

6. Continuar rebolando depois de gozar faz toda diferença.
Finalmente, pela primeira vez na lista, a mulher pode gozar. Gozou? Ok, continue rebolando que o seu parceiro-deus-supremo-da-sexualidade ainda não. O termo utilizado é "saco de batata", para mulheres que não "conseguem manter o ritmo depois de gozar"

Virei eu um saco de batatas, e não é porque gozei não. É porque não aguento mais. Quando de Cláudias e Novas se faziam as estantes, as meninas tinham péssimas informações sobre a própria sexualidade, corpo, prazer. Hoje, que existe a internet, o mal segue se propagando. Mas a gente não vai deixar não, a gente não pode deixar.

Toda mulher tem a obrigação de zelar para que as adolescentes não sofram. O problema não é falar de sexo. O PROBLEMA É NÃO FALAR DE SEXO. É preciso falar sobre sexo e sobre prazer feminino, ou seguiremos romantizando a violência. E quer saber o que as profissionais do sexo sabem e muitas de nós não? Que o mundo segue uma merda para quem nasce mulher.


Nenhum comentário:

Postar um comentário


Somos Marcella Rosa e Marina Sena, parceiras no blog, na luta e na vontade de mudar - nem que seja um pouquinho - o mundo. O Maggníficas é um pouco de nós, porque aqui tem moda democrática, empoderamento feminino e amor próprio. Nosso foco é a sororidade e a vivência plena de todos os corpos, porque acreditamos que somos todas maggníficas e que todo mundo pode tudo!

maggnificas@gmail.com