Minha amiga virou estatística

escrito por Carol Caran


"O estudo "Mapa da Violência 2015: Homicídio de Mulheres", (...) mostra que 50,3% das mortes violentas de mulheres no Brasil são cometidas por familiares. Desse total, 33,2% são parceiros ou ex-parceiros. (...) O país tem uma taxa de 4,8 homicídios para cada 100 mil mulheres, a quinta maior do mundo, conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) que avaliaram um grupo de 83 países."*

Minha amiga virou estatística. Foi morta pelo marido durante uma briga. Ele se matou em seguida. Fazia alguns anos desde que nos falamos pela última vez, mas durante a faculdade éramos bem próximas. Estudávamos na mesma sala, saíamos juntas pras festas, eu almoçava na casa dela toda semana e ela ás vezes dormia na minha casa. Por conta dessas coisas da vida adulta, depois da formatura, fomos espaçando os encontros até virarmos espectadoras da vida uma da outra nas redes sociais. 

Minha amiga era linda. Tinha duas graduações em boas faculdades, um emprego público, segundo eu soube. Esse fato gerou o comentário quase unânime nas redes sociais e entre meus colegas e conhecidos que souberam do ocorrido: "o que uma mulher linda dessas tem na cabeça pra ir atrás de homem desse jeito?". Nem vou entrar no mérito da nossa cultura de culpar a vítima, pois na primeira versão das notícias constou que foi ela quem apareceu armada no local do crime, ameaçando o marido infiel. 

Minha amiga era intensa. Quando tínhamos vinte e poucos anos ela costumava se gabar de não levar desaforo pra casa. Ela, ás vezes, floreava um pouco as histórias. O corriqueiro, o cotidiano não bastava. Pra nós ela sempre contava ter protagonizado cenas de novelas que quando narradas por outras fontes, não eram tão românticas assim. 

Minha amiga, como outras tantas outras mulheres e amigas, e eu mesma, por muito tempo, certamente rimava amor com dor. Acreditava que pra viver uma grande paixão era preciso briga, intensidade, ciúmes, discussões. Ela certamente não se achava boa demais pra simplesmente arrumar suas coisas e ir embora no caso de infidelidade do parceiro. Ela decididamente achou que precisava gritar, ameaçar, exigir o afeto dele. 

Talvez ele não a deixasse ir embora. Talvez ele a ameaçasse. Talvez ela já tivesse sido vítima de violência. Talvez ambos vivessem numa gangorra emocional, variando entre ódio e mais ódio disfarçado de amor. Eu não sei, nem nunca saberei. Quase quinze anos me separam da última vez que ela me contou algo sobre sua vida amorosa. No Facebook, a foto de ambos felizes no dia do casamento. 

Do dia do crime até hoje foram muitas noites insones, com o rosto, a voz, a gargalhada, o jeito dela de jogar os longos cabelos pro lado pra encerrar um assunto, passando pela minha memória junto com tudo que eu queria ter dito e não disse. Com a minha própria versão do momento do crime como um filme nos meus pensamentos. 

Enquanto a vida "real" é rotineira, meio monótona, cheia de compromissos, a ficção, como minha amiga, romanceia relações abusivas como "apaixonadas", mas pra quem vive é só terror. Eu digo então pra vocês, pra quem sabe tocar a amiga de outra pessoa. Não tem amor na explosão, no ciúmes, na dor. Não tem amor quando a ausência do outro dá falta de ar e gera desconfiança. Não tem amor se você precisa saber dos passos dele por outras pessoas. Não tem amor nos gritos, nas brigas, nas agressões. Não tem amor se ele te chama de paranóica, de louca, de chata, quando no fundo você sabe que tem razão. Não tem amor se ele errou mas jura que te ama e vai mudar. Uma, duas, dez vezes. Não tem amor se um dos dois já disse que vai matar ou morrer se o outro quiser embora.

Se você vive esse tipo de "amor", você só tem falta de amor próprio. Se você vive esse tipo de "amor", você vai morrer: aos poucos, na alma, no coração, ou assassinada, como minha amiga.  Parafraseando uma outra amiga, se não tem paz, está errado. 


* Fonte: G1


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