Aqui em casa

escrito por Rosa


Férias é uma palavra que só existe em sentido conotativo, figurado, dialético, sei lá que são férias. Porque nas férias eu ainda trabalho: tem doutorado para escrever, material para preparar. Férias significavam férias quando eu fazia do almoço meu café da manhã e passava as tardes revezando entre a piscina e o baralho. Acho que não sei mais nadar e que não me lembro a ordem das cartas.
Férias significava ver os amigos para fazer nada. Não tenho nenhum amigo fazendo nada nesse instante, porque as férias deles também não são férias do sentido extenso da palavra. Enquanto o computador me admira escrevendo, os livros me expiam e lembram que há uma bibliografia inteira a ser fichada. Achada, também. Parece ruim, mas não é.

Não é porque estou em casa. Eu tenho a minha casa em Campinas, gosto demais dela, aliás. Mas enquanto a Anhanguera diminui a distância entre mim e meus pais, eu sei que estou chegando em casa. Eu sei que vai ter comida boa, vai ter cama aconchegante, vai ter abracinho sem fim. Não sei se minhas amigas estarão por lá e quando nos veremos, mas sei que ao menos os filhos dela estão. Descobri com o Francisco que existe uma coisa maior que saudade de amiga: saudade dos filhos das amigas. E de fazer absolutamente nada enquanto ele destrói a casa.
Logo chega meu irmão também. Vai passar horas me apertando, me mordendo, só pra tentar - e conseguir, sempre com êxito - me irritar. Ele quase sempre chega alguns dias depois de mim, e eu passo esses dias todos esperando porque sei que vem um monte de histórias que ele vai contar, enquanto a gente mata algum doce da minha mãe, tomando o terceiro bule de café do dia.





Nessa casa eu trombo comigo aos três, aos 15, aos 18 anos: nas fotos, nos livros e nos meus diários que pulam ora ou outra na minha mão. Trombo com minha identidade, e com muitos espelhos (meu pai adora espelhos) que me mostram que eu me tornei exatamente o que eu esperava que seria (talvez mais cansada, e possivelmente mais feliz). Aqui tem que em casa o cheiro de tempero com café destoa da janela cheia de orquídeas da minha mãe.

Voltar para casa é acordar cedo para trabalhar, mas com café de mãe. É dormir tarde trabalhando, mas com sanduíche do papai. É cansar do serviço no meio da tarde, e papear com os dois sobre qualquer coisa tão simples quanto a vida que passa pela janela barulhenta do centro da minha pequena cidade. Quando o Sertanejo antes de ser Universitário cantou que de longe avistava "a linda e doce Ribeirão, toda iluminada feito um céu no chão", eu já sabia: passando esse céu eu chego no meu inferninho, onde eu encontro o que há de mais sincero: o resto de mim que a distância e o tempo foram sugando.



Um comentário:

  1. Ah, os textos da Marcela... como sempre, admiro muito! É uma delícia a leitura dos seus textos! E adorei o irmão! kkkkkk

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