O tamanho especial.

escrito por Rosa


Quem tem um tamanho que foge do regular (para mais ou para menos) em algum sentido vai entender a seguinte sensação:

você quer muito x.
x é legal, tem a ver com seu estilo. x vai te deixar mais descolada, mais confortável, mais sexy, mais qualquer coisa que você queria ser.
mas não existe x pra você
porque x não se confecciona na sua numeração
acaso confeccione, não vem para essa loja
acaso venha, só vem um, e já acabou
acaso volte, a gente te liga
me passa seu número
te dou um toque
um mês
dois meses

x já saiu de moda
você ainda espera conseguir um

vou mandar fazer!
costureira só tem tempo daqui dois meses!
x está no instagram
x está no facebook
x está no seu coração
só não está no seu armário.

Desolada, só resta uma esperança: que x volte à moda enquanto você ainda estiver viva.

Foi assim comigo desde sempre. Sempre quis um milhão de sapatos, mas eu nunca os tive. Calçar 41 e morar em Batatais significou, por anos, só usar all star e havaianas.

Acostumada com a dor do desejo irrealizável, surge uma onda maravilhosa - que acompanha, inevitavelmente, a democratização propiciada pela internet - de roupas e sapatos fora do padrão.
E x está ao alcance de um clique.

mas acontece que x é muito caro.

Aconteceu sábado passado: queria um biquíni retrô, adoro esse modelo. Achei um na augusta.
"Quanto é?"
"170"
achei caro. Mas era meu sonho, cara...Vou provar
"O gg para a parte de baixo e o g para a de cima"
"Aqui"
Ficou lindo.
Ficou maravilhoso.
Eu era a própria pessoa que sempre quis ser em um biquíni retrô -e a gente sabe como é raro a gente se sentir bem num biquíni...
"Vou levar"
"210"
"MAS VOCÊ DISSE 170"
"Só os tamanhos normais."

Ah é. Sou anormal. Fiquei irritada, magoada, decepcionada. Claro: o que é um peido para quem tá cagado? - diria o filósofo. Mais 40 reais para quem gastará 170?

É a minha dignidade.
Não, meu senhor e minha senhora, ninguém gastou mais pano para fazer essa roupa. Não vem com essa desculpinha. (se fosse assim, roupa de bebê estaria barata e a moça faria uma média, já que eu sou "normal" da cintura pra cima - talvez eu seja um et ou uma frankenstein pós-moderna)

Roupas maiores, sapatos maiores, tamanhos especiais, muitas vezes, são caros porque querem aproveitar da fragilidade emocional de quem nunca foi contemplado com o mainstream. Querem vender, como a coca cola, mais que o produto: sua felicidade, sua inclusão.
Valorizo demais esse desejo de inclusão, mas colocar um preço diferenciado inclui, necessariamente, excluindo.

Eu sou mais uma na multidão.
Mais uma, querendo x.
Mais uma girando na roda do desejo do consumo capitalista.

Faça seu trabalho, venda seu serviço. Mas não tente conquistar meu coração. É golpe baixo. Pega mal.

Ah... e não, eu não comprei aquele biquíni. Não sou especial a ponto de ser feita de boba.



ps: ainda que o preço de algumas lojas que contemplam plus sejam salgadinhos, valorizo imensamente a iniciativa. Pega bem, inclusive, deixar tudo igualmente salgadinho. Não faça diferença, porque não somos diferentes <3 somos iguais a qualquer um: triviais e maravilhosxs.






5 comentários:


Somos Marcella Rosa e Marina Sena, parceiras no blog, na luta e na vontade de mudar - nem que seja um pouquinho - o mundo. O Maggníficas é um pouco de nós, porque aqui tem moda democrática, empoderamento feminino e amor próprio. Nosso foco é a sororidade e a vivência plena de todos os corpos, porque acreditamos que somos todas maggníficas e que todo mundo pode tudo!

maggnificas@gmail.com