Sobre os palpites e a fobia social

escrito por Carol Caran



Tá, eu confesso. Pro desespero da minha mãe eu nunca fui muito boa em receber ordens ou palpites. Desde criança eu sou metida a independente e costumo preferir o caminho mais difícil e fazer por mim mesma a aceitar a experiência alheia, particularmente se ela vem em forma de alguma frase no imperativo (pro deleite não admitido da minha mãe, o meu filho é igualzinho nesse aspecto). Isso posto, vocês podem dar um desconto pra minha próxima afirmativa: existe um lugar no inferno só pra pessoas que dão palpites pra grávidas e recém mães. E este lugar está lotado. 

O meu próximo passo é pedir perdão de joelhos a todas as mães pra quem eu já dei palpite. Porque sim, eu também já fiz esse desprezível papel. Prometo que estou trabalhando muito muito muito nisso. E antes que me acusem de estar exagerando, vamos aos fatos. 

Se você tem um bebê e resolve sair de casa por, digamos, uma hora, pra levá-lo ao pediatra, você vai ser bombardeada com cagações de regras. Por conhecidos. Por amigos. Por pessoas na internet. Por estranhos. 

"Não tá muito frio pra sair com o neném?".

"Ele tá com calor, tira essa manta". 

"Tadinho, ergue o carrinho pra ele ver a rua". 

"Nossa, esse sling deve deixar a coluna dela toda torta"

"Você tá dando mamadeira pra ele tão novinho?!?!? Não pode!"

"Você tá dando peito ainda?!?!?!?! Não pode!"

"Nossa, larga de ser fresca e neurótica, vai criar um moleque chato". 

"E daí que ela vai ficar doente, tem que criar resistência". 

"Vai na escola já? E se ficar doente?"

"Ele ainda não tá andando/falando/engatinhando/sentando? Por quê? Minha sobrinha resolvia uma equação de física aos 7 meses."

"Ele dorme no seu quarto? Vai criar um adulto dependente e inseguro."

"Ela dorme no próprio quarto? Vai virar uma criança carente e insegura."

Não, não importa o quanto aquela mulher esteja ansiosa. Não importa o quanto ela esteja se esforçando. Não importa o quanto ela converse com o médico ou leia publicações sérias sobre o desenvolvimento do bebê. Não importa o quanto ela e o pai da criança debatam sobre se estão fazendo a escolha certa. Você, cidadão que não participa do desenvolvimento daquela pessoinha em tela é um especialista em bebês. Você sabe mais que a mãe, o pai, a avó, o médico juntos! 

Você tem filho e desenvolve fobia social e perde a fé na humanidade e em si mesma.

Meu único conselho pras amigas mães é: essa pessoa vai ficar acordada contigo numa daquelas noites de crise em que o bebê acorda mil vezes? Essa pessoa vai parar de fazer o que quer que faça todo dia pra cuidar do seu filho por um dia enquanto você faz uma massagem relaxante e toma champagne? Se a resposta for não, e óbvio que é, mande ela pro inferno. Mesmo que seja mentalmente. Mas mande!

Ilustração: Quadro da artista Katie M. Berggreen





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