Maternidade e suas guerras

escrito por Carol Caran





Uma das coisas que mais mudou em mim depois que me tornei mãe foi o meu julgamento. Se antes eu admirava e inspirava em grandes profissionais de carreiras de sucesso, hoje eu reverencio de joelhos e aplaudo de pé uma mãe solteira. Se antes eu lia os jornais e pensava o que está acontecendo no mundo, hoje é mais ou menos assim: “Rapaz morre baleado em assalto”. E se fosse meu filho? “Preso homem que matou rapaz no assalto.” E se fosse meu filho? Pra cada pessoa que mata ou morre, eu penso automaticamente que em algum lugar existe uma mãe chorando e se perguntando o que poderia ter feito diferente. É como se,  no meu coração, formássemos uma gigantesca irmandade de mulheres dando risada com uma taça de vinho na mão quando uma pessoa que não é mãe diz que está cansada/sobrecarregada. Sabe de nada, amiguinho...


Só que a despeito desse sentimento de que “só uma mãe pra entender o que eu estou sentindo”, vem aí a Internet pra esfregar na nossa cara que as pessoas são mesmo muito estranhas. Entre as mães que eu sigo, os grupos de mães dos quais eu faço parte ou as publicações que acompanho tem sempre uma guerra pra descobrir quem é mais mãe.

As disputas são variadas: tem o parto humanizado versus cesárea eletiva, a amamentação em livre demanda versus a fórmula, a amamentação tardia versus o desmame precoce, o sling versus o carrinho, a mãe que fica em casa versus a mãe que trabalha fora, a papinha orgânica versus o miojo, a cama compartilhada versus o quarto do bebê desde o primeiro dia... E isso apenas em relação aos primeiros anos de vida da criança. Como se a forma que você pariu ou alimentou ou fez dormir o seu filho fosse medida pra quanto amor você sente por ele.

A maternidade virou disputa feminina. Nas rodinhas é super comum um grupo de mães criticar a forma como a outra cria seu filho. Na hora da birras, os olhares de acusação vem mais das mulheres do que dos homens. Uma está sempre legitimando as próprias escolhas (ou falta delas) diminuindo a atitude da outra. As sogras criticam as noras, as mães criticam as filhas, uma amiga critica a outra. Todo mundo critica até a que morreu de parto.

A Marcella escreveu no seu blog pessoal esses dias que uma das grandes armas do patriarcado foi ter posto as mulheres em competição. Objetificadas e sem poder, deveríamos competir para conseguir a atenção do sujeito da ação: o homem” Nessa briga de "maternagem" (essa palavra já começou a me dar nos nervos), nem existe o tal sujeito.

Só existe um monte de mãe que, não importa como conduza sua vida e a criação dos seus filhos está certamente exausta, sem tempo pra si mesma, apavorada com a violência, as doenças, a crise, repetindo mentalmente, sem conseguir parar, a música infantil da vez, tentando fazer o melhor que pode com o que tem em mãos e morrendo de medo de errar. Não devíamos precisar diminuir a outra pra nos sentirmos melhor sobre nós mesmas. Você não está sozinha.  Somos irmãs. Somos iguais. Somos mães: a força mais poderosa do mundo. 

Ilustração: quadro de Katie M. Berggren


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