Da solidão de ser mãe

escrito por Carol Caran



Eu tenho uma amiga que, toda vez que a gente fica de prosa trocando figurinhas sobre os últimos desafios que as crias proporcionam, diz: "eu sabia que era difícil ser mãe, mas não sabia que era tanto". Eu não. Eu sempre pensei que seria absurdamente trabalhoso e complicado. Eu também tinha certeza de que era recompensador, embora não entendesse a dimensão disso. O que me pegou de surpresa mesmo foi o tanto que é solitário. 

É mais evidente no primeiro ano de vida do filho. Particularmente nos primeiros meses. E não importa o quão presente o pai da criança ou sua mãe sejam. Se você é daquelas mães seguras que sai de casa com o neném pequenino ou do tipo que fica em casa esperando as vacinas pra sair (sou dessas). Se você tem muitos ou poucos amigos, família grande ou pequena. A verdade é que você vai se sentir solitária pelo menos uma vez por dia. 

Assim, sua autonomia não existe mais. Você não pode simplesmente pegar a bolsa e ir ali. Depois das primeiras visitas, a grande maioria das pessoas que você conhece vai perder o interesse em você. Sua conversa vai ser meio monótona. Você vai falar de cocô, de peito, descrever coisas que só são interessantes pra você e algumas pessoas próximas. Você está cansada demais pra ser solidária com "problemas menores" (assim, com aspas mesmo) como o chefe ou o namorado da amiga, a roupa da balada, o professor chato da faculdade. 

É a solidão que bate quando você vê todo mundo junto em algum lugar que não é baby-friendly. Quando você acha que vai ter companhia no feriado mas o pessoal resolve andar 1200 km pra escalar uma montanha. Quando você chama gente pra comer em casa e na hora que a refeição é servida, você sai pra atender o neném e quando volta, todo mundo já comeu e se levantou (ou, no emblemático caso de uma amiga, a comida acabou e ninguém se lembrou de guardar um pedaço pra ela). Suas amigas com filhos moram longe e/ou estão, como você, divididas entre o trabalho, as crianças e as famílias. 

É a solidão de entrar num lugar e todos fazerem festa pro seu bebê e ninguém se lembrar de te dizer oi. A de saber que precisa ir dormir mas ter vontade mesmo de ligar pra alguém e falar por horas sem parar.  A vontade de sair de casa mas simplesmente não conseguir fazer isso nem se concentrar em nada porque você não vê a hora de voltar pra perto da cria. Você e seu marido, antes tão unidos, agora se revezam em tudo, então parecem mais o sol e a lua, nunca no mesmo lugar ao mesmo tempo. Ou acordados ao mesmo tempo. 

O mundo para pra você quando você se torna mãe, mas na verdade ele continua a girar e você fica tonta e confusa. O bebê é seu melhor amigo. Mas ele não conversa. Não diz que você está bonita nem que você é uma guerreira, uma super mulher, que está fazendo um trabalho fantástico. Se você tiver a sorte de ter um marido maravilhoso, que divide todas as tarefas com você (eu tenho), ainda vai ouvir uma ode por dia ao trabalho dele. Do médico, da moça da vacina, da estranha no supermercado.Você, claro, só faz a obrigação. 

O bom é que passa. Com o tempo, você se acostuma com a ausência das pessoas que sumiram. Faz novos amigos. Passa a valorizar mais aquelas que, surpreendentemente ou não, sempre aparecem pra um café da tarde ou deixam de ir numa balada pra ficar em casa com você. A internet existe (pra louvar em pé). Seu filho também cresce, aumenta a interação (e o trabalho, se é que é possível). Juro, um "eu te amo, mamãe" apaga todos os meses sem reconhecimento. Você supera. A solidão passa. Você e o parceiro se reconectam. Até você resolver ter o segundo.  

Ilustração: "Serenate" - Quadro da artista Katie M. Berggren


Um comentário:

  1. Eu só li esse texto agora. Hoje minha filha está com quase três anos, hoje já melhorou muito. Mas olha. Vc nesse texto falou tudo o q eu sempre quis explicar às pessoas e nunca consegui. Que texto perfeito. É exatamente isso. Essa solidão. Que ninguém vê, ngm entende, ngm se solidariza. Eu perdi amigos, muitos, depois da gravidez. Até hj ainda estou me reconstruindo dessa solidão. Mas obrigada. Obrigada pelo texto maravilhoso e libertador. Vou mostrar pra todo mundo.

    ResponderExcluir


Somos Marcella Rosa e Marina Sena, parceiras no blog, na luta e na vontade de mudar - nem que seja um pouquinho - o mundo. O Maggníficas é um pouco de nós, porque aqui tem moda democrática, empoderamento feminino e amor próprio. Nosso foco é a sororidade e a vivência plena de todos os corpos, porque acreditamos que somos todas maggníficas e que todo mundo pode tudo!

maggnificas@gmail.com