Eu não sei cruzar as pernas.

escrito por Rosa


“Senta igual mocinha” nunca funcionou pra mim. Eu não sei cruzar as pernas e, hora ou outra, alguém acaba vendo mais do que o que eu pretendia mostrar. Sorte minha que meus pais nunca usaram esse clichê da normatividade das posições de acordo com o gênero (“menino não cruza a perna, filho”). Eu sempre sentei do jeito que eu quis. No máximo, minha mãe se preocupava quando eu rolava, de roupa branca, no chão imundo. Nada que parar de comprar roupas claras não tenha resolvido. Fui uma criança desajeitada; sou uma mulher incapaz de me manter em equilíbrio. Eu caio, escorro, tropeço demais. Eu poderia culpar os astros, eu poderia culpar a altura, o tamanho do quadril que esbarra em tudo. Porém, resolvi não culpar ninguém. Uso pouco salto alto e redobro a atenção em sala de aula (não que eu já não tenha trincado a costela caindo em plena aula). Faço o que posso e aceito minha condição: quando eu nasci, veio um anjo travesti, desses que vivem de batom vermelho e me disse: vai, Rosa, ser maladroite na vida.

Se Drummond era gauche, que mal há em ser maladroite?
Exceto os roxos, as dores, a cara de desolação misturada com vontade de rir das pessoas, nenhum. Nenhum problema. Pra mim, para os meus pais, para o meu amor (ele jura que acha lindo o meu jeito desajeitado. Eu finjo que acredito!)
Ok, eu já me resolvi comigo. Mas ainda me sinto pessoalmente ofendida quando vejo algumas cenas. Escrevo pra vocês de um quarto de hotel. Estou viajando e presenciei uma cena ontem no avião: “filha, senta igual mocinha. Não é pra mostrar nada desse jeito. É FEIO”. Isso foi seguido de um tapa, leve, no joelho da garota. Ela não tinha mais que 4 anos. Exceto que houvesse algum maníaco pedófilo perdido no avião, alguém estava preocupado em ver a calcinha (ou a fralda, talvez) daquela menina? Claro que não. Não sei a intenção sincera da mãe, nem sei se ela fez isso por força do hábito, mas eu sinceramente fico me perguntando: será mesmo que a gente é obrigado a sentar exatamente do modo que a convenção estabeleceu? Afinal, quem não quer ver estrela, já diria um sábio rapaz que eu conheço, não olha pro céu. Não olhe pro meio da perna de ninguém, nem pro cofrinho peludo do colega da frente, nem pro mamilo fugindo do sutiã da amiga. Quem procura, acha. E que mal tão grave há nisso? Não sei.
Lembro de uma vez ter ido visitar a casa de uma amiga. Ela tinha uma mãe bastante conservadora, mas eu não podia imaginar o limite disso. Eu percebi quando a vi levando uma bronca por estar com o cabelo totalmente desarrumado e bagunçado. Olhei para os meus cabelos e ri, numa mescla de fúria e pena.
Repito que escrevo isso do quarto de um hotel. Eu nasci e fui criada em casa, e sempre andei meio desnuda no calor batataense. Enquanto escrevo esse texto e estudo, vi que da janela do outro prédio um rapaz me olhava. Eu não estou exatamente nua, mas nem completamente vestida. A descuidada sou eu, ou o folgado é ele?
A resposta vai depender da formação de cada um.
Não gosto de cruzar as pernas. Não sei usar saia curta (por isso prefiro as longas, e, ainda assim, piso na barra e pago mico). Mas o problema não sou eu. O problema é a culpa, sempre do lado errado.
Vontade de dar um tapinha no joelho da mãe e dizer: deixa sua filha sentar como ela quiser. Aos 24 anos, ela vai trabalhar e, para se sustentar, ter que sucumbir a inúmeras convenções sociais – que eu espero diminuam nos próximos 20 anos – mas agora, aos 4 anos, deixa ela: bagunçar o cabelo, sentar de qualquer jeito, descombinar a roupa. O mundo vai ficar difícil, não adiante esses detalhes.
Garotinha descabelada e sentada com perninhas de índio e saia no meio do aeroporto: você é minha pequena revolução diária.

Esse texto saiu há um tempo no meu blog pessoal. Como as Maggníficas estão preocupadas em discutir tudo que tange o universo feminino, resolvi republicá-lo.
Link do original: Marcella Rosa


3 comentários:

  1. Oi Marcela!!! Eu sou dessas leitoras de blogs que nunca comenta em lugar nenhum - pura preguiça ou porque acho que meu comentário não vai acrescentar nada. Mas você é tão sensacional que eu não poderia deixar passar... Adoro tudo que você escreve!!! Tomara que vire uma integrante maggnífica permanente!!! Um beijo!! Mile

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    1. Oi, Mile. Coisa boa de ler esse seu comentário. Além da gentileza com que foi escrito, dá mais ânimo ainda em tocar nesses assuntos. Nenhum comentário passa sem acrescentar nada e o seu, em especial, trouxe muita alegria a mim. Estarei aqui sempre, pode esperar. Um beijo enorme.

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  2. amei, amei e amei mais um pouquinho. também fico poohta da cara quando vejo aquelas mães que, enquanto deixam seus mocinhos reinarem livres no espaço publico, agarram a mãozinha da mocinha pra ela não se sujar/correr/cair/ser feliz. fico torcendo pra isso mudar logo, por enquanto espero poder deixar a minha mocinha ser criança em paz sem eu ter que espancar ninguém na rua ou ter que restringir demais o viver dela pra proteger do que for mau.

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