A moda também é libertadora

escrito por Marina Sena


Já contei no Blog outras vezes que em uma parte de minha adolescência, eu me vestia somente com roupas pretas e largas, em um tipo de defesa para esconder meu corpo. Eu não queria ouvir comentários que pudessem me deixar magoada e por isso já me “blindava” antes que isso pudesse acontecer. Eu não queria ninguém apontando para mim dizendo o quanto eu era gorda.

Hoje sei que eu era uma adolescente fora dos padrões, a maior entre minhas amigas da escola, mas eu não era exatamente gorda. Mas era assim que eu me via, apesar de os ossinhos do quadril serem aparentes. Eu só queria me esconder, e tentava enganar a mim mesma dentro de camisetas pretas de bandas de rock e bermudas largas masculinas. Sempre andava com o cabelo preso em um baixo rabo de cavalo, não queria nada diferente. Não queria que me olhassem.

Quando adolescente eu tive apostilas de moda e cadernos onde desenhava manequins, mas hoje penso que aquilo era uma fuga de quem eu achava que era. Moda era algo que eu jamais me interessaria verdadeiramente. E hoje, depois de tanta coisa e sendo uma mulher gorda, parei para pensar em tudo que mudou.


Tudo mudou principalmente quando descobri o “plus size”. Foi incrível perceber que é possível. E quando me tornei uma maggnífica, não fazia ideia do quanto minha vida mudaria. Eu aprendi que existem pessoas diferentes com diferentes tipos de corpos, diferentes tipos de gostos e de estilos, e aprendi a gostar. Aprendi a amar a diversidade.

Mas o mais incrível é perceber o quanto tudo mudou depois que comecei a fazer escolhas da vida baseadas no meu gosto pessoal, não importando se faz sentido, ou se isso combina com aquilo. Tudo mudou quando comecei a me olhar com outros olhos, quando comecei a me enxergar como uma pessoa com possibilidades. Tudo mudou quando comecei a me aceitar.

As coisas mudaram não só com relação a mim mesma, em uma relação interna, mas sobre o que vem de dentro pra fora também. Eu me julgava e queria tanto me esconder que não permitia também, inconscientemente, que outras pessoas gordas fizessem o contrário. Hoje sei que podemos - e devemos - ser mais naturais, mais flexíveis, mais empáticos. Quando vejo alguém usando algo que eu não gosto ou não usaria, eu defendo a escolha da pessoa de poder usar. Depois que comecei a me aceitar passei a aceitar as escolhas dos outros também.


A moda é um instrumento, símbolo de personalidade, de expressão. É muito bacana conhecer as tendências e tudo que envolve esse universo, e mesmo assim não se prender a seguir regras. É ótimo poder usar o que quiser. No meu armário só haviam roupas de cores escuras, e hoje eu tenho o maior orgulho de ser esse arco-íris ambulante que vos fala. Ainda tenho roupas de cores escuras, mas quando as uso é porque eu quero, não por achar que não tenho outra opção. Eu amo as cores, misturá-las, combiná-las, descombiná-las!

Eu gosto de usar coisas que estão na moda, gosto de experimentar, inovar, de seguir meu estilo. Mas também gosto de usar o que não está na moda, se for do meu agrado. Não importa se “engorda”, se acham feio, se não é adequado. Para mim é. Isso é libertador. E moda para mim é liberdade.




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