Pernas-para-que-te-quero

escrito por Maggníficas


Não gostava de calças, a não ser que fossem bem largas e discretas. Calças marcavam o que havia de pior em mim: as pernas grossas e o quadril (bunda, sejamos sinceros) tão grande quanto eu imaginava a via láctea.


Enquanto a saia godê criava um mistério acerca de onde começava e onde terminava minha perna – e o mistério é sempre mais gentil que a certeza – a calça gritava ao mundo que pernas têm fronteiras delimitadas e tão explicitamente cruéis. Fronteiras essas que garantiriam o julgamento.


Ter pernas grossas pode ocasionar lesões: em mim, porque quando o atrito existe (e em qualquer situação da vida humana em que há atrito isso se dá), surge a dor. Atritava as pernas e sentia, fisicamente, a tortura de ser grande (na praia, a tortura passava a ser chinesa). Nos outros, as pernas grossas podem ser igualmente violentas, porque, desprovidas de um tamanho viável ao controle, elas tomam vida própria e trombam, conforme a vontade sádica delas, em tudo que veem pela frente. Meu quadril tem vida própria.


Do mais: catracas nos prendem. Corredores estreitos são coercitivos. Cadeiras não são, em nada, democráticas. Já que eu tinha um problema sério, eu tinha que disfarça-lo: quando eu não poderia usar saias – seja culpa da moto, ou do cenário machista do meu emprego – eu usava calças pretas. Sempre pretas. Nas adolescência, amarrava uma blusa na cintura, porque a calça era uniforme obrigatório.


Um belo dia eu comprei uma calça estampada e tive a impressão que as estampas aumentavam ainda mais a minha perna.


Nesse dia, eu olhei para o espelho e disse: foda-se. Minhas pernas são amor, todo resto é que é atrito.




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Marcella Rosa é formada em Letras, mestre em Crítica Literária e, porque não tem juízo, cursa atualmente graduação em filosofia e doutorado em História da Literatura. Gosta de gente, de qualquer forma, por isso, é apaixonada pela sala de aula e por escrever sobre pessoas. Não gosta de biografias em terceira pessoa, mas faz. Gosta de livros, mas não faz. Prefere sempre a troca: de figurinha, de fluidos ou de experiência.


2 comentários:

  1. Tem horas que temos que apertar o botão F mesmo! gostei dos look, menos da 3ª calça. bjus
    amorenagatinhamake.blogspot.com.br

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  2. Amei o texto... me identifiquei... me sinto assim... kkkkkkk. Mas somos lindas, e isso é o que importa !!!!!!

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Somos Marcella Rosa e Marina Sena, parceiras no blog, na luta e na vontade de mudar - nem que seja um pouquinho - o mundo. O Maggníficas é um pouco de nós, porque aqui tem moda democrática, empoderamento feminino e amor próprio. Nosso foco é a sororidade e a vivência plena de todos os corpos, porque acreditamos que somos todas maggníficas e que todo mundo pode tudo!

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