Meu pé, meu querido pé...

escrito por Maggníficas


...que me aguenta uma vida inteira.

Quem já recebeu uma massagem no pé deve ter pensado, ao menos por uma fração de segundo, que aquilo poderia ser o fim das guerras e a solução para a violência extrema. Suponho que a maioria dos grandes regimes totalitários e alguns pares de serial killers bem que podiam ter sido evitados com massagens nos pés.

Um dia, quando eu tinha 7 anos, descobri que meu pé não estava adequado. Eu queria muito uma melissinha, mas eu calçava 37. O tamanho infantil parava no 35. Meus pais, que sempre me ensinaram a lutar pelos meus direitos (e uma melissinha deveria ser um direito para as crianças), me ajudaram a redigir uma carta ao “Clube da Melissinha”. Eu ganhei um adesivo de abelha e uma boneca. Mas eu queria um sapato!

Aos 26 anos – e desde os 13 – calço 41. Não, você não leu errado.

O mundo faz isso mesmo: oferece algo que você não quer para não admitir que não são capazes de dar conta de vocês. Eu não sou uma mulher muito alta (1.73m), mas eu tenho pés muito grandes, oras. E por que isso deveria ser um problema? Não, não deveria.

Por muitos e muitos anos, eu não conseguia comprar sapatos fechados (alguns 39/40 abertos me serviam, porque eu tenho os dedos longos, e quando estão livres, dá tudo certo). 

Por um bocado de anos, só podia usar all star.

Até hoje, eles têm um lugar especial no meu armário. Esse aí é número 42, roubei do namorado.

É claro que as lojas especializadas sempre existiram. Eu é que não tinha dinheiro para elas. Primeiro porque era uma estudante ferrada; segundo porque o preço era tão grande quanto a forma. Lembro quando comprei meu primeiro sapato fechado de salto, parcelado em mil vezes. Uso até hoje, da marca Odete Lis.

Não é uma graça? Eu ameacei chorar quando comprei... Faz mais de quatro anos.

Algumas marcas, mais caras, eu fui descobrindo que faziam a numeração 40. Claro que fica apertadinho, mas foi emocionando também quando adquiri minha primeira sandália da Arezzo, numa troca de estação. Só tinha sobrado o 40. Veja como os meus dedos ameaçam fugir a qualquer momento.

Sandália da “Arezzo”, de 4 coleções atrás. Um amor em minha vida.


Mais uma da linda

Quando me tornei professora, fui conhecendo várias alunas que tinham o pé grande também. E eu percebia que, cada vez mais, essa galera existia. São muitas as pezudas por aí, reclamando e sofrendo por não poder comprar o sapato da moda. 

Oxford maravilhoso que comprei na “Casa Eurico”. Tenho ele há 5 anos, e quando dava aula no fundamental meus alunos diziam que eu ia jogar boliche.

É uma felicidade que essas lojas especializadas existam.  É uma pena que elas precisem existir. Acho que nunca vou entender o porquê de não fazer. Entendo perfeitamente que a loja não traga 8 pares 40, como fará com o 38: mas fazer parte de uma minoria não deveria ser um problema.

Esse allstar é uma edição limitada sobre o Niemeyer, presente do namorado. “Converse”, obrigada por ter me apoiado nesses anos de luta.

Há um ano, eu descobri que a marca “Usaflex” não faz só sapato de vovó. E mais: que trazem a numeração 40. E mais: que me serve. Como vocês podem imaginar, eu andei gastando minha vida lá. Compro mais sapato do que preciso. Deve ser trauma. Antes que eu vá procurar ajuda terapêutica, veja esses dois xuxus que, ainda por cima, possuem uma espécie de amortecimento – já que o sapato pressupõe que vamos andar, não faria sentido que todos devessem ter amortecimento? Pois é...

Mocassim bordô da usaflex com detalhes em dourado.


Botinha preta básica para qualquer momento da sua vida.

Não tenho vergonha do meu pé mais. Já tive: quando o Titanic (literalmente) bombou, eu era uma criança que tinha um tênis branco. O meu apelido? Iceberg. Aos 18, na faculdade: quatro mãos.

E hoje? Hoje eu compro tornozeleira para dizer para o mundo que meu pé (grande, comprido e machucado) tem todo o meu amor. Afinal: ele me aguenta (muito mais que você) o dia inteiro.

Tornozeleira de olho grego para você parar de invejar a estabilidade que só um pé grande pode te dar.



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Marcella Rosa é formada em Letras, mestre em Crítica Literária e, porque não tem juízo, cursa atualmente graduação em filosofia e doutorado em História da Literatura. Gosta de gente, de qualquer forma, por isso, é apaixonada pela sala de aula e por escrever sobre pessoas. Não gosta de biografias em terceira pessoa, mas faz. Gosta de livros, mas não faz. Prefere sempre a troca: de figurinha, de fluidos ou de experiência.


Um comentário:


Somos Marcella Rosa e Marina Sena, parceiras no blog, na luta e na vontade de mudar - nem que seja um pouquinho - o mundo. O Maggníficas é um pouco de nós, porque aqui tem moda democrática, empoderamento feminino e amor próprio. Nosso foco é a sororidade e a vivência plena de todos os corpos, porque acreditamos que somos todas maggníficas e que todo mundo pode tudo!

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