O que é ruim pra você?

escrito por Carol Caran



Sendo didática e pouco científica, podemos dizer que normativa é o nome que damos à gramática que prescreve regras (normas) para o uso da língua. Como tudo que prescreve regras, a gramática normativa cria padrões.

Antes que você ache que eu encarnei a professora louca de português, eu me justifico: a gramática normativa, e seus inúmeros padrões, ainda é a que estudamos na escola e sobre a qual se embasam os textos ditos científicos. E o parâmetro que permite que o desvio (variantes) possam sofrer preconceito linguístico – quando rejeitamos, desprezamos, etc, uma pessoa pelo modo como ela fala.

A gramática normativa é um dos padrões que existem no mundo. Não é o único, nem o mais cruel. A moda (aqui, também, em termos gerais) é uma norma. Ela também estabelece e, por vezes, exclui e violenta uma parcela considerável que não fala igual àquela linguagem. Porque a moda é, efetivamente e acima de tudo, linguagem: uma intenção comunicativa: passamos diferentes mensagens com as nossas roupas.

Acontece que em um mundo violento como o nosso, em que a cristalização de paradigmas é a maior arma dos poderosos, falar diferente é um problema muito sério. Ninguém está preparado para as diferenças quando cresce rejeitando-as. E temos sido educados a não se destacar pelo contraste jamais.

O Brasil tem destaque no mundo todo por ter difundido a “escova brasileira”, isto é, o alisamento definitivo. Violentamos crianças que tem o cabelo crespo, afro ou cacheado diariamente atribuindo a eles o adjetivo ruim.

Essa é a Danielle Lima. Uma das minhas melhores amigas. Olha pra mim e me diz: esse cabelo parece ruim?

Poucos modalizadores são tão esvaziados de sentido. Afinal, o que é ruim pra você?

E por ser ousada demais e um pouco atrevida, eu já te respondo: ruim é o que é diferente. A mensagem que você não esperava ouvir.

Num país como nosso, meu senhor, o cabelo não é ruim porque ele cresce para os lados. O cabelo não é ruim porque prende diferente. O cabelo não é ruim porque não dá para pentear seco. Num país de herança escravocrata, um cabelo ruim é porque é associado a um passado absolutamente vil. O cabelo ruim é hierárquico.


Ruim é seu senso estético, se não sabe ver bela aqui. Gabriela Feliciano, aluna, amiga e musa inspiradora.

Não para por aí. Quando falamos de herança escravocrata, inúmeros (e incontáveis) são os casos em que os adjetivos saem do campo da caracterização e vão para o da violência.
Ela é morena/mulata/escura, mas é bonita. Tem traços finos.

Fino é o contrário de grosso, meu senhor. Traços finos remetem a uma clara hierarquia: o que é fino, é delicado, é sutil, é tolerável e prazeroso. O grosseiro não.


Carolina Mota: amiga, diva e minha professora de pilates. Não é linda porque tem traços finos, não. Eu não sei o que são traços finos. Ela é linda porque é. Os créditos da foto são do Caio Sanfelice.

Estou aqui massacrando os pobres dos adjetivos, mas eles não são os únicos joguetes do mal nesse samba louco da gramática. Pobrezinha da preposição até, que é jogada no campo dos advérbios para produzir orações do tipo "Ela é até bonita para uma gorda."

Bonita, feia, linda, legal, gostosa: modalizadores que dependem de um acervo cultural. Prazer estético mobiliza experiência, não pode ser ÚNICO. É como se você dissesse "Esse café é até gostoso para um grão."

Ser bonita independe de ser gorda/magra. Ser gostoso independe de ser grão/oleaginosa.

Angie Stone (foto de Kevin Goolsby - Fonte)
Sério que é ATÉ bonita?

Enfim, a linguagem é como um martelo: pode ser ferramenta útil e válida para pregar um prédio na parede, mas facilmente vira uma arma propagadora de violência.

Eduque sua linguagem. Eduque seu olhar: você tem certeza que você o que você quer ou o que querem que você veja?

Fotos: Acervo Pessoal


Marcella Rosa é formada em Letras, mestre em Crítica Literária e, porque não tem juízo, cursa atualmente graduação em filosofia e doutorado em História da Literatura. Gosta de gente, de qualquer forma, por isso, é apaixonada pela sala de aula e por escrever sobre pessoas. Não gosta de biografias em terceira pessoa, mas faz. Gosta de livros, mas não faz. Prefere sempre a troca: de figurinha, de fluidos ou de experiência.


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