Rosa e Lírio

escrito por Carol Caran


Oi gente!

Sabem quando às vezes temos a impressão de estar andando sem sair do lugar? Ultimamente, tenho me sentido assim de forma geral. As pessoas me parecem mais cruéis e menos abertas a opiniões diferentes ou a ter sentimentos e atitudes boas em relação ao próximo. Vivemos num mundo que prestigia o chato, o intolerante, o agressivo e trata falhas de caráter como virtude. 

Eu estava num desses humores pessimistas e sem fé na humanidade ou no meu papel no mundo (a louca existencialista) quando a minha amiga-irmã Marcella me mandou esse texto.  

Lá em 2006...

Minha amiga é absolutamente linda e absolutamente inteligente. Uma bruxa com as palavras, como vocês vão ver a seguir. E de repente ela me fez lembrar de algo que eu "fiz" há mais de dez anos, quando o Maggníficas não existia nem na minha ideia, e que influenciou a pessoa que ela é hoje. E aí eu pensei que se eu tenho uma mísera contribuição sobre a mulher que ela é, uma mistura explosiva de beleza, inteligência, cultura, sensualidade, fashionismo, sucesso profissional, amoroso e familiar, eu posso continuar acreditando na nossa missão aqui: espalhar mensagens de amor, positividade, autoestima e empoderamento feminino. 

Esse é um texto sobre a Marcella e eu. Mas pode ser sobre todas nós. Obrigada minha migalinda por me dizer essas palavras, que me tocaram e modificaram mais do que sou capaz de me expressar. Amo você!

"Acho muita graça – mas não digo nada – quando as minhas alunas adolescentes vêm me dizer o quanto invejam minha ‘segurança’. Palavrinha complicada, porque eu sou extremamente insegura com um milhão de coisas, mas só porque ali, em sala de aula, eu não me intimido e porque, mesmo sendo uma pessoa fora padrão estético eu gosto de mim e me preocupo com moda etc, eu sou o poço da segurança universal aos olhos jovens delas.

Mas é preciso dizer que...

Por partes: gosto de deixar bem claro para os meus alunos no início do ano que eu não admito que atrapalhem a minha aula: 1, porque não é justo com os colegas que querem prestar atenção; 2 porque não é justo comigo que adoro dar aula e não quero que nada estrague um dos melhores momentos do meu dia. Por eu estar fazendo exatamente aquilo que eu gosto e para o qual me preparo diariamente, não vejo motivos para insegurança. Sobre estar bem comigo mesma. Bem, nem sempre foi assim.

Eu sempre fui muito alta perto dos coleguinhas e sempre fui grande. Mesmo que hoje eu ache que naquela época eu tinha um corpão, eu me achava horrorosa. Além de ser muito maior que todo mundo, eu não cabia em absolutamente nenhuma roupa. Fora meu pé 41 que me impedia de diversificar sapatos para além do all star e das havaianas.

Eu estava convencida de que beleza não era pra mim e que, ainda bem, eu era boa com livros.

Na época com 13-14 anos, conheci uma das pessoas que mais amo até hoje. Ela era linda, bem vestida e, claro, bem magra. Todo mundo se apaixonava por ela, não importa onde fosse. Um belo dia ela me convidou para tomar algo num bar e disse que convidaria a irmã dela também.

Quando cheguei lá, vi minha amiga, pouca coisa mais velha que eu, sempre linda, esperando por mim. Ao lado de uma mulher ruiva, super estilosa, tão linda...e, para minha surpresa: grande.

De lá para cá eu agradeço. Cada noite que eu dormia na casa delas, eu aprendia alguma coisa sobre meu corpo. Eu ficava que nem o ratinho da cinderela vendo a irmã-mais-velha (que, em seguida, eu chamaria de minha) se maquiando e escolhendo roupas divertidas. Eu que usava camiseta de banda e calça larga vi ela colocando a blusinha do iron maiden com uma saia vermelha e pensei: aqui se justifica toda humanidade.



Brincadeiras de moda à parte: ela que me segurou na mão e disse que eu era linda daquele jeito, e tirou fotos minhas e me mostrou beleza onde eu não via. Mostrou roupas que cabiam em mim, se eu soubesse onde e como comprá-las. Ela me mostrou um mundo todo que eu desconhecia por puro medo. Ela que me deu minhas primeiras lições de feminismo e nunca deixou que ninguém me machucasse o coração. Ela que me disse para não fazer mal porque o mal volta pra gente.

A ela, devo os cabelos vermelhos que usei anos mais tarde. Meu posicionamento político. Toda minha gratidão.

E porque a engrenagem é cruel e a luta nunca pode parar: ela teve meu ombro quando achou que não estava adequada.

Por isso, a ela devo especialmente o desejo de gritar para o mundo o quanto ele é que está fora do padrão, errado e cruel. E que a gente não para não. Vamos passar com nossas bundas enormes e vamos chutar com nossos pés imensos todo mundo que disser que não pode.

Porque pode sim. O que a gente quiser.

Obrigada, Carol."


Marcella Rosa é formada em Letras, mestre em Crítica Literária e, porque não tem juízo, cursa atualmente graduação em filosofia e doutorado em História da Literatura. Gosta de gente, de qualquer forma, por isso, é apaixonada pela sala de aula e por escrever sobre pessoas. Não gosta de biografias em terceira pessoa, mas faz. Gosta de livros, mas não faz. Prefere sempre a troca: de figurinha, de fluidos ou de experiência.



Um comentário:


Somos Marcella Rosa e Marina Sena, parceiras no blog, na luta e na vontade de mudar - nem que seja um pouquinho - o mundo. O Maggníficas é um pouco de nós, porque aqui tem moda democrática, empoderamento feminino e amor próprio. Nosso foco é a sororidade e a vivência plena de todos os corpos, porque acreditamos que somos todas maggníficas e que todo mundo pode tudo!

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