Moda é foda. Mas podia não ser...

escrito por Maggníficas


(dedicado a minha querida Pauline...)

O problema são as minhas roupas.

Essa resposta parecia coringa, qualquer um poderia tê-la dito, e em diferentes situações. Mas essa seria uma resposta inesperada quando ela, que é absolutamente linda, respondeu ao meu questionamento:

- Sério que você não gosta do seu corpo?

Eu fiquei incrédula, porque ela tem aquele tipo de corpo que todo mundo quer: coxa sarada, bunda e cintura fina. Ela é do tipo gostosapracaralho e me dizia que não, não gostava do corpo gordo dela.

Mas ela não mentia. Ela não queria confete da amiga. Ela não queria ser elogiada. E eu a conhecia bem o suficiente para reconhecer sinceridade na sua fala.


O problema são as minhas roupas. Elas me apertam, me machucam. Elas dobram e criam dobras. Eu gosto do meu corpo quando estou nua. 

Eu não tinha pensado nisso, mesmo convivendo comigo nua há anos. Taí uma verdade: apesar de achar inúmeros defeitos em mim, eu gosto mais de mim sem roupa do que com roupa. Porque as roupas não são necessariamente feitas para gente ficar bem, elas criam marcas no nosso corpo que não existem quando eu estou nua. Eu adoro a minha cintura quando tiro a roupa, mas eu odeio quando a calça cria uma marca de amassado, mostrando que aquele cós não gosta daquela pele.

Sinceramente, a minha bunda grande não me incomoda quando eu estou no banho, mas ela parece triplicar de tamanho quando o tecido errado fica sobre ela. E os peitos? Meus peitos sofrem a opressão diária de serem esmagados. Eu sinceramente ouço sininhos no momento auge do meu dia: tirar o sutiã (quando, submissa aos costumes sociais, dou-me o trabalho de colocá-lo).


Acima de tudo isso, eu quero dizer que eu adoro costas nuas. E fico imaginando quantas costas estão vagando por ai sem serem vistas. Eu não acho que as dobrinhas nas costas sejam feias, por exemplo. Elas são macias e simpáticas. Eu queria vê-las. Gosto também da cervical gritante dos magrelos. Acho legal demais. Gosto das marcas do corpo. Que dobrem e desdobrem, acho lindo mesmo. É que quando a dobrinha é preenchida por tecido e forma 35 novas dobrinhas, ai fica ruim porque elas machucam.

Do mesmo modo como machucam as calças que parecem embaladas a vácuo. Ou aquela saia, que podia ser absolutamente confortável, se ela não obrigasse a minha amiga a colocar uma cinta medieval para mudar 2 milímetros de sua barriga, que é tão bonita. É uma barriga, sabe? O que pode ter de tão inóspito assim? As roupas nem sempre são criadas para dar carinho, às vezes elas espancam a gente, fingindo que é amor. E eu que não tenho tanta vocação ao masoquismo, acabo, vez ou outra, trocando de ideia – e de blusa. Eu, nesses últimos tempos, saí vendendo os meus sapatos apertados e altos demais. Gosto de salto, mas quando não dói. Não sei passar dor sem careta. E entre o bico fino e o sorriso: eu elejo a alegria dos meus dedos.


É isso, enfim. Essa é uma reflexão sobre dor, sobre prioridade: quanta dor a gente precisa por num salto alto, sendo que o pé da gente pode ser tão bonito descalço? 

(e não venha dizer que é hipocrisia concordar comigo, porque o sistema é bem violento e vai te engolir, ora ou outra. Nem que seja no casamento do seu primo, na formatura da sua filha, ou no dia de rever o seu grande amor)

Não, eu não acordei naturalista e não vou trabalhar nua amanhã. Eu só acho que a prioridade da roupa devia ser abraçar o nosso corpo, e não estuprá-lo.


Todas as fotos daqui.



Marcella Rosa é formada em Letras, mestre em Crítica Literária e, porque não tem juízo, cursa atualmente graduação em filosofia e doutorado em História da Literatura. Gosta de gente, de qualquer forma, por isso, é apaixonada pela sala de aula e por escrever sobre pessoas. Não gosta de biografias em terceira pessoa, mas faz. Gosta de livros, mas não faz. Prefere sempre a troca: de figurinha, de fluidos ou de experiência.




Nenhum comentário:

Postar um comentário


Somos Marcella Rosa e Marina Sena, parceiras no blog, na luta e na vontade de mudar - nem que seja um pouquinho - o mundo. O Maggníficas é um pouco de nós, porque aqui tem moda democrática, empoderamento feminino e amor próprio. Nosso foco é a sororidade e a vivência plena de todos os corpos, porque acreditamos que somos todas maggníficas e que todo mundo pode tudo!

maggnificas@gmail.com