Linda e nua no Brooklyn

escrito por Marina Sena



Um relato libertador, emocionante e muito empoderador que quero dividir com vocês! Não vou me prolongar, só peço que leiam e considerem o convite de Denise Jolly:


[DESCRIÇÃO DA IMAGEM: Nesta imagem há duas fotos em preto e branco colocadas lado a lado. A foto à esquerda é de Madonna nua feita pelo fotógrafo Steven Meisel. Madonna é uma mulher branca com um corpo pequeno, está usando sapatos de salto claros com a ponta aberta no dedão do pé. Existe uma bolsa preta pendurada em sua mão esquerda. Seu braço direito está estendido, dedos cerrados a frente com o punho solto e o polegar ligeiramente esticado. Ela tem cabelo loiro claro, levemente encaracolado, na altura dos ombros. Sua cabeça está ligeiramente inclinada para baixo e para a direita. A expressão em seu rosto é confiante e dona de si. Ela está em pé numa rua asfaltada, em meio ao tráfego. Há árvores e grama na calçada a esquerda. Ao fundo, dois carros em movimento passam e a rua faz uma curva levemente para esquerda. A foto à direita é de Denise Jolly nua feita pelo grupo Shameless Photography. Denise é uma mulher branca e grande, está usando sapatos de salto alto pretos abertos no dedão do pé. Existe uma bolsa preta pendurada em sua mão esquerda. Seu braço direito está estendido, os dedos cerrados para a frente com o punho solto, polegar ereto apontando para o céu. Ela tem o cabelo escuro com cachos soltos após os ombros. Sua cabeça está levemente inclinada para cima e para a direita. A expressão em seu rosto é real. Ela está em pé numa rua asfaltada em meio ao tráfego. Há uma calçada vazia a esquerda, um carro indo embora atrás dela. Ao fundo, a estrada faz uma ligeira curva para a direita. Atrás dela há uma grande ponte de aço e vários edifícios de escritórios]




Era quinta-feira à tarde quando eu saí do táxi usando meu vestido de bolinha favorito, saltos altos e uma bolsa. Minha calcinha estava em segurança, enfiada no bolso direito do casaco de inverno que estava apoiado em meu antebraço. Era março no Brooklyn, o que significa que parecia primavera mas a sensação era de inverno. Encontrei a equipe da Shameless Photography há um quarteirão e meio de onde a foto ocorreu para apresentar-me, arrumar o cabelo e praticar a minha pose antes de caminhar separadamente até o local da foto, num estilo agente secreto. Nós nos encontramos secretamente, sabendo que uma vez que meu vestido fosse tirado não teríamos muito tempo para conseguir a foto de uma mulher com 1,82m e 130 quilos em pé, nua no bairro do Brooklyn, Nova Iorque, sem atrair muita atenção.



Eu tenho 34 anos e a primeira vez que vi um corpo nu que parecia com o meu, assumido com orgulho, foi apenas um ano atrás. Ao dizer “um corpo como o meu” o que quero dizer é, não importa a gaiola de aço de um espartilho ou o castigo elástico de um cinto, minhas curvas grossas derramam sobre mim e para fora como uma massa macia. Eu sempre fui uma massa macia. É exatamente como minhas mãos de trabalhadora, foram geradas em mim. É como a minha força de vontade e meu coração obstinado, é um indicativo tanto da minha luz como da minha sobrevivência. Eu não estou escrevendo isso para contar uma história de como meu corpo veio a ser como é, estou escrevendo para compartilhar como eu finalmente cheguei a parar e olhar, realmente olhar para o meu corpo e aprender ativamente o poder que há em redefinir o conceito de beleza.



Há um ano atrás, eu estava folheando livros na The Feelmore Gallery no centro de Oakland, Califórnia, quando me deparei com um exemplar de The Full Body Project, um lindo livro em preto e branco, desses que colocamos em mesas de centro, recheado com fotografias de mulheres e seus grandes corpos. Olhei cada página, cada corpo e me encontrei olhando para as partes de mim que eu nunca tinha considerado dignas de ver. Embora cada corpo no livro fosse grande, cada um era único em sua forma e graça. Este livro foi a maneira pela qual fui formalmente apresentada a Alotta Boutté e Jukie Sunshine. Duas ferozes, gordas e femininas artistas/ativistas que vim a conhecer e admirar. Seus corpos foram os primeiros grandes seios, grandes bundas e gloriosas barrigas que eu reconheci bonitos, ao mesmo tempo reconhecendo quão similar a suas formas eram a minha. Pela primeira vez pensei comigo mesma: “Isso significa que eu poderia realmente ser bonita?”. Dizer que este momento foi fundamental seria subestimá-lo. Mesmo assim, 10 meses se passaram antes que eu estivesse na frente de um espelho, olhando para mim completamente nua.



Quando caminhei ao redor daquela esquina do Brooklyn em março, eu estava presente em cada célula do meu corpo. Cada célula estava perfeitamente aterrorizada. Pisei na rua desgastada e alinhei minha postura da maneira que ensaiei durante toda a manhã. Ainda estava com meu vestido, esperei Sophie dar o assentimento e na hora que tirei meu vestido, o joguei o mais longe possível de mim, tranquei meu corpo na posição e rezei para que tivesse dado certo.



Lembro que levou 33 anos para que eu passasse a ver mulheres do meu tamanho vivendo com orgulho e sem pedir desculpas por seus corpos nus. Isso é inaceitável. Há mulheres, pessoas, corpos por todo mundo ensinados a acreditarem que não são desejados e invisíveis. Nós não somos construídos para sermos invisíveis; somos construídos para sermos desejados, não importa nosso tamanho ou aparência. O ‘The Full Body Project’ me convidou a olhar para o meu corpo inteiro pela primeira vez. Jukie Sunshine e Alotta Boutté me convidaram para ver a beleza de meu corpo, não me dizendo, mas me mostrando como tão belos eles são. Considere esse texto meu convite para você experimentar a si mesma e seu belo corpo na mesma luz e poder.


Denise Jolly é escritora, performer e educadora. É a criadora do ‘Be Beautiful Project’. Seu trabalho busca fazer intersecções entre gênero, classe, sexualidade e corpo. Atua ensinando e fazendo performances em escolas, universidades e outros espaços públicos e privados. Gosta de fazer grandes coisas com pessoas bacanas, é movida pela arte, pelo senso comunitário e como eles trabalham juntos. Para saber mais, visite seu site, twitter, tumblr, instagram e facebook.



Texto de Denise Jolly, tradução de Bia Cardoso. Para ler o texto completo clique aqui.




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