Ela

escrito por Maggníficas


Ela era o desejo de todos os adolescentes, meninos e meninas, cada qual em seu lugar. Loira, olhos claros, personalidade forte, excelente jogadora e magra. Era ela que comandava, era ela que jogava como ninguém, era ela que batia e beijava os meninos e, enfim, era ela que, "de brincadeira", me chamava de gordinha e me deixava como café com leite na Educação Física, embora eu sempre tenha sido boa nos esportes. Eu a amava, a odiava e a invejava infinitamente.

Então, como o tempo faz com todo mundo, nos separamos e seguimos, sei lá eu, rumos diferentes. Dez anos depois, mais ou menos, nos reencontramos numa dessas festividades do colégio feita pra reunir mesmo ex-alunos. Eu, com um filho de três anos e ela com uma criança um pouco menor. Eu, com fome e triste, porém magra. Ela, gorda, muito gorda e, na minha cabeça, infeliz e perdedora. Porque a gente sabe que é assim que se tratam os gordos: perdedores.

Num mundo que é dos moderados, comedidos e esforçados, a ideia de gordura vem sempre como relaxo, falta de vontade, falta de vergonha na cara. E por mais que racionalmente eu soubesse da estupidez que era tudo aquilo e soubesse que o meu ideal de felicidade estava longe de ser aquele e que, no fundo, eu não estava feliz, vê-la gorda foi como dizer para mim mesma "venci! Eu sou melhor!", mesmo que eu estivesse, meses depois, tomando antidepressivos e chorando na terapia.

Se esse encontro fosse hoje, quase 14 anos depois, algumas coisas certamente seriam diferentes: velhas crenças voltariam, sem dúvida, mas eu seria capaz de neutralizá-las porque me sinto mais feliz, porque compreendo que ela era uma criança também insegura na escola, compreendo que vivemos num mundo machista e que nos enxergam como coisas e, dessa forma, competimos pelo troféu que é o homem e que o mundo diz, a todo momento, que gordos são perdedores, são feios e são patéticos. Quando eles não são. Mas a gente precisa aprender isso todo dia. E ensinar também.







Aline é uma apaixonada pela risada e pelas letras. Com filhos, com sonhos, ainda acredita que, mesmo em tempos de Facebook, dizer a verdade ainda é muito mais legal.


Um comentário:


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