"Ame-se" ou "como eu passei a vida toda me sentindo gorda"

escrito por Carol Caran


Olá MaGGníficas!

Eu nunca fui muito boa em posts pessoais, mas o que eu quero compartilhar com vocês pode, quem sabe, evitar que vocês continuem a cometer a mesma besteira que eu. 

Sempre que alguém me pergunta sobre meu peso, eu acabo respondendo, "Ah, eu sempre fui gorda..." Acontece que eu nem sempre fui gorda, mas eu sempre me senti sinceramente assim. 

Eu quando tinha 17 anos e um cabelão
Eu nunca fui uma criança difícil pra comer. Na verdade, eu topava tudo: legumes, verduras, guloseimas, arroz com feijão, frutas... Não existe praticamente nenhuma comida no mundo que eu digo que não como de jeito nenhum. Como toda criança, eu adorava os doces da minha avó. Mas comia sem problemas o prato do almoço. E eu me lembro de ser chamada de gordinha desde muito pequena.

Eu sempre fui troncuda, da cintura larga e da barriga redondinha. E também era bastante ativa: apesar de dar preferência aos livros e discos, eu nunca neguei um jogo de queimada ou um passeio de bicicleta. Fiz jazz até ficar mocinha e no colégio participei do time de handball, de basquete, de natação, de futsal e atletismo no Colégio. Eu tinha onze anos quando alguns adultos me disseram que eu tinha que fazer uma dietinha, pra emagrecer um pouquinho. 

Com 13 anos eu fui a Miss da minha escola e um monte de colegas criticou minha escolha pois eu não era magra. Eu perdi as contas de quantas vezes eu tentei emagrecer antes dos 15 anos.  Fiz um monte de dieta que aparecia nas revistas pra adolescentes. Cheguei até a ir nos Vigilantes do Peso. Eu me lembro que pesava 67 quilos (eu tenho 1,68 m) nessa época. Mas eu me sentia gorda, imensa, obesa. 
Obviamente, numa festa à fantasia
(Festa Cafa) em algum momento
antes da dieta de 2001

Minhas amigas tinham pernas finas, barrigas chapadas, ossos salientes nos quadris. Minhas amigas usavam manequim 36, eu tinha que me espremer pra entrar num 40/42. Eu queria usar calça baixa, shortinho, minissaia, vestido justo. Mas tudo que eu vestia sempre me deixava com a barriga saliente, as coxas grossas, os ombros largos. 

Quando eu tinha 20 anos, usava manequim 44 e já estava na faculdade, vi uma daquelas fotos tiradas em
ângulos horríveis e decidi emagrecer. Comprei um pacote numa clínica de estética beeem popular e passei um ano comendo uma bacia de alface com queijo minas no almoço. Juro. Por um ano eu não comi um pão ou uma colher de arroz. Eu não me lembro de tomar café da manhã. Me lembro de ter quase desmaiado no chuveiro uma vez e de ter entrado num jeans 38.

Depois disso, meu cabelo começou a cair e eu acabei tendo que voltar a comer normalmente. Só que meu corpo não reagia mais normalmente. Eu passei a ganhar peso com uma facilidade impressionante e pior, tudo na barriga. Em menos de seis meses eu já havia recuperado todo o peso perdido. E logo, já estava bem mais gorda do que quando comecei a tal dieta. 

O resultado da minha dieta maluca: zero peito, zero
quadril e ainda não achava bom
O meu cabelo nunca mais parou de cair, até eu ficar grávida, há menos de um ano atrás. Eu também nunca mais emagreci mais do que um ou dois quilos, e isso foi em 2001. Desde esse ano eu também tenho um monte de disfunções hormonais. Eu não posso afirmar com certeza que não as tinha antes ou que não surgiram em decorrência da idade. Mas eu e alguns médicos apostaríamos que não. 

Depois de 2001 eu me tornei gordinha de verdade. Passei pra usar manequim 44/46. Mais tarde 46/48. Cheguei ao 48/50 que usava antes de engravidar, aos 32 anos. Minha dieta se tornou cada vez mais restritiva com o passar dos anos, a facilidade pra engordar só aumentou. Eu continuei buscando métodos pra emagrecer: dieta, exercícios, reeducação alimentar, remédios, milagres... Não tive sucesso com nenhuma delas. Nada, zero. Não mais do que um ou dois quilos perdidos que eu recuperava na primeira retenção de líquido. 

Várias vezes eu tentei voltar a dançar, mas sempre acabava envergonhada por ser a gorda fazendo coisa de magrinha. Eu não fui à minha festa de 5 anos de formada pois não queria que meus colegas me vissem daquela tamanho. E eu perdi as contas de quantas vezes eu me deixei ser maltratada amorosamente falando por me sentir absolutamente indigna por estar "acima do peso". 

Em 2005, super diva e me achando gorda
Hoje, casada com um homem maravilhoso, com um bebê fantástico e no maior peso que eu já tive, usando manequim 52/54 e com uma barriga de gestante de seis meses (agora com estrias) eu olho pra trás e tenho vontade de me bater com um pedaço de pau. Eu olha minhas fotografias e percebo como eu era uma bela mulher, com um corpo legal. Me lembro de como eu só fui ter celulite bem mais velha, de como eu era ativa e bem disposta, de como eu nunca sofri com nenhum problema de saúde ligado à obesidade e ao sedentarismo. 

Há uns três anos eu fui atrás de um médico pra tentar colocar o balão intragrástico. Ele se recusou. Disse que eu tinha que me aceitar como eu era, que o balão só ia estressar meu corpo e fazê-lo se comportar como um corpo "traumatizado", com mudanças severas no meu metabolismo. Ele disse que vivemos uma era de obesidade não apenas em razão dos maus hábitos mas especialmente por começarmos a fazer dieta muito cedo e por fazer loucuras pra emagrecer desde muito jovem. Ele disse que o corpo reage numa espécie de "rebote" armazenando cada vez mais gordura pra se precaver da próxima fase de fome. 

Não fui pesquisar se a teoria dele tem fundamento. Mas sei que no meu caso fez muito sentido. Eu passei décadas odiando meu corpo, me sentindo mais gorda do que era realmente, me comparando com pessoas com o tipo físico bem diferente do meu. 

Em 2010, começando a me aceitar e ainda mais magra
do que hoje
Talvez se eu não tivesse feito aquela dieta maluca há doze anos atrás eu estivesse gorda do mesmo jeito hoje. Mas uma parte de mim pensa que, se eu tivesse me aceitado como sou, da constituição forte, musculosa, com tendência sim a ser mais cheia no abdômen, mas com pontos fortes a serem explorados, enfim, se eu soubesse o que sei hoje, eu talvez tivesse me tratado com mais respeito e carinho. Talvez eu tivesse aprendido a manter meu peso, a me vestir bem, a mandar à merda quem em chamava de gorda. Talvez eu tivesse continuado a fazer minhas atividades físicas sem vergonha e ficado mais saudável. 

Blogs sobre o mundo plus size não querem, como muita gente pensa, induzir a população a comer sem parar e chegar aos 250 quilos achando isso normal. Eu só gostaria que vocês pudessem, diferente de mim, entender que cada corpo é um, cada beleza tem suas características e que, como já diria a Lady Gaga, não há caminho errado, você é certa pois nasceu assim. Portanto, ame-se e cuide-se, do jeito que você é. Antes que olhe pra trás e descubra que você era bonita mas não sabia.  


6 comentários:

  1. Coisa linda de se ver, sou teu fã, Carola! Fofa por demais, amei amei l!

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  2. Puxa Carol, não conhecia sua história, mas admiro vc pela coragem de ter compartilhado isso com a gente.
    Big Beijos

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  3. Linda sempre!
    Amo você!

    Beijos neste coração rechonchudo! :-)

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  4. muuuito linda e muita coragem mesmo !

    beijos
    http://coisas-de-mulher-by-daiani-molina.blogspot.com.br/

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  5. Emocionante sua história... Exercendo o amor próprio o corpo reage bem. Esteja pronta para toda transformação. "O amor lança fora todo medo"

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  6. Que bom que vc conseguiu chegar nesse ponto e aproveitar sua felicidade bjos.

    http://suumaluta.blogspot.com.br/?m=1

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