Gordofobia: porquê você não gosta de gordos?

escrito por Carol Caran


Tem sempre quem defenda que o humor pode tudo, que estamos vivendo numa "ditadura das minorias", que não podemos mais fazer piadas de cunho étnico, religioso, de orientação sexual... Enfim, há quem ache que o mundo está ficando chato pelo fato de não podermos mais ofender e humilhar uma pessoa ou um grupo em razão de características físicas/genéticas/geográficas e sei lá o que mais. 

Eu, sinceramente, não consigo entender o mecanismo que faz com que alguém se sinta ameaçado/incomodado com algo que é feito por outra pessoa, completamente estranha à vida pessoal desse alguém. 

Alguém acha divertido comparar uma gestante a uma baleia

O que faz alguém sentir raiva de um casal gay que adotou uma criança do outro lado do mundo, ou de um imigrante que mora na sua cidade e não te incomoda diretamente, ou ainda de uma pessoa aleatória diferente em algum grau que não influencia de nenhuma forma a sua vida?

Mas acima de tudo, não passa na minha cabeça o motivo pelo qual os gordos são tão odiados. Em tempos de moda plus size eu ainda me deparo diariamente com comentários que vão do ligeiramente negativo ao obscenamente ofensivo em relação às pessoas gordas. 

E o fato do gordo comer te incomoda por quê mesmo?

O pior é o pretexto: "não se cuidam", "não são saudáveis", "são mal exemplos". Besteira, considerando o que muitos atletas e celebridades fazem com o próprio corpo (anabolizantes e hormônios reconhecidamente nocivos, álcool e drogas, cirurgias plásticas, malhação extrema, distúrbios alimentares) que fazem com que sejam os últimos exemplos de vida saudável existentes. Podemos concluir, portanto, que  esse argumento é só uma desculpa pra justificar a própria aversão. 

O gordo não é mal visto apenas agora. Na literatura mundial é comum encontrar descrições pejorativas de personagens obesos, associados normalmente à personalidades covardes, mesquinhas, cruéis e sempre ligados ao excesso de prazeres "carnais". 

Fazendo graça com o sofrimento alheio: digno e humano. Só que não. 

Enquanto as pessoas acham que é normal e aceitável serem más e cruéis com os obesos, ridicularizá-los e diminuí-los ou pior, muito pior, criticá-los sob o pretexto de que "só quer ajudar", uma legião de pessoas (mais da metade da população adulta brasileira, segundo o IBGE) se sente constantemente mal a respeito de si mesmos, pensam serem inferiores, incapazes, perdedores e indignos da felicidade e da estima alheia. 

Eu não vou entrar no mérito sobre as causas de obesidade ou sua relação com doenças e qualidade de vida. Nosso único objetivo é criar mecanismos para as pessoas que estão acima do peso conseguirem sair desse ciclo eterno de auto desprezo, auto rejeição e auto destruição. E como gorda e boa observadora da natureza humana eu garanto: o problema não é seu. 

"Saibam a diferença: curvilínea X gorda". Tá, e agora?
As pessoas odeiam, segregam, desprezam, ofendem e humilham por defeitos internos, por questões mal resolvidas, por motivos que estão muito além do seu comportamento do outro. Salvo as devidas proporções, não é o homossexual que provoca a agressão do homofóbico, assim como não foram os judeus que provocaram a ira dos nazistas nem os negros que provocaram a crueldade da Ku Klux Khan. Não é o gordo comendo na praça de alimentação quem tem problemas, e sim que sai do próprio mundo pra se incomodar com a cena. 

Claro que não é fácil viver num ambiente hostil, especialmente se ele começa dentro da própria casa ("você vai comer doce?!?" ou "Fulana emagreceu 15Kg com uma dieta, por quê você não tenta"). É preciso ter uma dose gigante de auto-controle e auto-estima pra não se abalar com as constantes críticas e rejeições. 

Por isso, procure buscar fazer as coisas que te deixam feliz, livre-se das comparações, se jogue na moda pra gordinhas, se inspire na vida dos gordos bem resolvidos e muito amados, lembre-se que a intolerância do mundo não é pessoal. E acima de tudo, o ódio e o preconceito não são problemas seus!


9 comentários:

  1. Minha história de vida é digna de um filme de terror em relação a tantos preconceitos que já sofri por ser obesa. Sei q grande parte de td isso é culpa minha mesmo por me calar e deixar fazer o q querem comigo... Só q acho q já estou cansada de tentar provar que além de ser gorda tbém sou inteligente, boa pessoa, batalhadora, etc... Infelizmente o ¨defeito¨ do gordo é visível... Sou funcionária estadual e para poder estar nesse emprego precisei emagrecer 21 kg em 70 dias ou eu perderia a vaga... Como pode passar em oitavo lugar na prova escrita, tirar 100 na prova psicológica, estar com os exames de saúde perfeitos e na hr que te vêem falar q não pode ocupar a vaga pq vc é gorda??? Meu chão caiu... São tantas histórias, tantas maldades, tristezas... me doem dmais...

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    1. A culpa não é sua! E aposto que além de gorda e inteligente, você é muito bonita e gostosa.

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  2. Radicalismo tem em todas as áreas: política, religião, comportamento... Na beleza não poderia ser diferente. Padrões de beleza sempre vão existir, não há como escapar disso. Uma maneira de atenuar as diferenças é pregar a diversidade. Diversidade de pensamento, de sexo, partidos e, claro, beleza. Encontrar novas perspectivas sobre o assunto.

    Agora uma coisa me chamou a atenção no texto: a imagem que mostra a "diferença" entre curvilíneas e gordas. Minha opinião é: NEM TODA GORDINHA É CURVILÍNEA, MAS TODA CURVILÍNEA É ATRAENTE - mesmo sendo cheinha. As curvas são um fator importantíssimo na beleza da mulher exuberante.

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    1. Preconceito, discriminação e violência não é radicalismo. Isso é opressão sistêmica. Radicalismo é aquilo que se opõe radicalmente à gordofobia. Que vai à raiz do problema e tem como princípio ser contra isso. Outra coisa: gordinha não, gente. Cheinha, pior ainda. Não tentem colocar eufemismos na minha condição. Eu sou GORDA.

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  3. É extremamente lamentável fazer piadas com relação a aparência de alguém, atitude ridícula de pessoas sem criatividade. Acham normal humilhar as pessoas e quem mais sofrem com isso são pessoas com características físicas desproporcionais. Recentemente em um programa de TV, nossa querida Adele foi exposta a essa brincadeira de mal gosto. Confira em nosso blog: http://ggpremium.blogspot.com.br/2013/03/adele-e-bombardeada-com-piadas-maldosas.html

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  4. Nossa, lamentável esse "celebiscates" no texto...pqp. o texto ta falando de inclusão e aí me posta um comentário machista e slutshame

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    1. Tem toda razão, Anônimo. Mancada das grandes. Já retirei o termo do texto e peço desculpas a quem posso ter ofendido.

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  5. Eu adoro esse site, me ajuda muito, principalmente quando eu estou com a auto estima um pouco abalada.Por favor, continue com o ótimo trabalho de vocês.TENHO CERTEZA QUE VOCÊS AJUDAM MUITA GENTE.

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  6. As pessoas querem que as outras sejam iguais a elas,a anos atrás houve um homem na Alemanha que também queria que todos fossem iguais e ele estava errado!

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