Uma beleza enjaulada

escrito por Maggníficas



Eu recomendo o filme VÊNUS NEGRA. O filme retrata a trágica história de Saartjie Bartman, mais conhecida como Venus Hotentote. A atriz Yahima Torres faz uma interpretação incrível dessa figura mítica africana. Em 1810, em Londres, diante de uma plateia espantada, ela era apresentada no palco e explorada como atração circense. Nesse, freak show, ela surgia como uma mulher selvagem, indomável, de nádegas descomunais. O espetáculo era orquestrado por seu empresário que via nela a chance de ganhar dinheiro com o exotismo de sua imagem. Mas a sociedade britânica, muito antes do politicamente correto, processou o empresário e ele se mudou para Paris, onde o espetáculo animava as festas privadas da elite fascinada pela estranha figura seminua de Saartjie. Daí as festas acabaram e ela foi obrigada a se prostituir para sobreviver.

Ela morreu em 1815 devido a uma doença inflamatória. Para os cientistas da época, ela era semelhante a um animal exótico e, portanto, objeto de estudo e análise minuciosa de sua anatomia. Entre eles, estava o célebre naturalista francês Georges Cuvier, cujas teorias contribuíram para o racismo científico do século XIX. Partes de seu corpo foram preservados e expostos no Museu do Homem até 1985. Só mais tarde, em 2002, seus restos mortais foram devolvidos à sua terra natal – a África do Sul.

Ainda hoje, o movimento plus size é visto como uma manifestação de uma beleza exótica, incompreendida. É certo que não se encontra mais enjaulada como a Vênus Negra do filme, mas muitos ainda não aceitam um bumbum grande como símbolo de beleza e muito menos quando todo o corpo ostenta uns quilinhos a mais. Mesmo as gordinhas mais curvilíneas ainda enfrentam resistência da sociedade que não quer sair do lugar-comum nem tão cedo. Agora, o que estamos vendo é um espetáculo pelo avesso. Ou seja: a estranha manifestação vem do povo e não de um indivíduo como foi a Vênus Negra. Estamos vendo um espetáculo tristemente promovido por mulheres que tem como principal objetivo atingir um emagrecimento satisfatório e ter a chance de empunhar a bandeira da silhueta delgada. Nesse cenário atual, as curvilíneas se tornam malvistas por preferirem afirmar a sua autoestima naquilo que elas são, e não num ideal de beleza distante. Então podemos, sim, dizer que existe entre nós uma versão daquele espetáculo grotesco que humilhou profundamente Saartjie: a busca incondicional pela magreza sem graça. Só não vamos guardar restos mortais de ninguém.

Por Ricardo Alexandre


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